domingo, 15 de janeiro de 2012


Ritmo no Poema



O ritmo apresenta-se de forma diferente no poema e na música, mesmo estas duas artes apresentem grandes afinidades e uma profunda relação que chega-se a classificar um determinado gênero de poesia como lírico.
No poema, existe a figura da métrica que não é, como na música, uma regência implacável sobre o ritmo. Além da rima, da sonoridade, é o ritmo que dá beleza à música, bem como ao poema.
O ritmo pode assumir grande importância no poema, que, mesmo um poeta vanguardista como Ezra Pound afirma que “quando um Poema se afasta muito da música, começa a degenerar”. Também Maiakovski em “Como fazer Versos” descreve como, “a partir de uma percepção de um ritmo (como o do seu próprio caminhar), podemos transformar o ritmo em sons e palavras, logo em versos”.
A partir da poesia do simbolista Mallarmé, a noção de ritmo pode não estar mais alinhada a ideia de verso, inclusive, podendo a distribuição espacial do texto poético determinar o seu ritmo de leitura, embora possa-se contestar a isto afirmando que esta distribuição espacial apenas delimite as pausas de leitura entre um verso (livre) e outro. Apesar da delimitação de pausas em um texto, explorando os seus espaços em branco e criando uma espécie de pausa, aí está o ritmo poético presente.




POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, ANTONINO DE OLIVEIRA JÚNIOR, CÍCERO MELO, PABLO GALLINDO E CYL GALLINDO


Premonição*
Natanael Lima Jr

A cidade aflita deixa existir:
o caos, o medo, o pânico
em mim.

O medo prometeu
embora (ainda) acorrentado
transgredir o fim.

dezembro/2009

*do livro “À espera do último girassol & outros poemas”



Ano Novo!?
Antonino Oliveira Júnior

Durante 364 dias eu sofro
E tento tirar
a trave que me cobre os olhos,
a mordaça que não me deixa falar,
as algemas que me prendem os braços,
as cordas que não me deixam mexer.



No último dia
mil abraços, felicitações,
esperanças diversas.
E no primeiro do próximo
colocam a trave, a mordaça,
as algemas, as cordas
e eu sofro
esperando que chegue um novo 31 de dezembro.


31/12/1971


O Pesadelo*
Cícero Melo

No fosso de dejetos, a parede
Pesada de cimento e água podre.
Do rio sob o mundo, sob a torre,
A cabeça do cadáver em degredo

Sobe e desce das águas devorando
Estrumes ressecados, carne mole;
Tudo que desce neste rio nefando,
A cabeça do cadáver agora engole.

Engole e rasga a carne macerada
Dos ossos dos seus dedos, mosca informe.
E a cabeça do sonho desolada
O faz sonhar de amor e depois dorme.

E dentro deste sonho uma paixão
O desmembra, medonho, a outra porta
Tecida de outras portas, e um caixão
Onde devorará sua mãe morta.

*O Poema da Danação, Recife: Bagaço - 2006



Passagem de ano
Pablo Gallindo*


O ano acabou nos quatro cantos ecoou!
Ah! Quanta sabedoria daquele que domina
os segundos, os minutos e à hora
do mesmo jeito, tudo mudou.


O ano começou, nos quatros cantos ecoou!
Ah! Quanta ciência daquele que imagina
sete noites, sete dias e a semana
No dia que começou, tudo mudou.


A hora marcada, a expectativa de vida
a quem cabe cada, cada, cada
dia ano-hora, ora!
Há hora de chegada pra cada ida.


Um ano de glória, dois de Sofia
Sete do Rei David, que crescia
dizendo: Pai, rezei um terço pra tua vida
Acabaste de chegar logo estarás de saída.


A expectativa de vida, a hora marcada
a quem cabe cada, cada, cada
dia ano-hora, Ora!
Há hora de ida pra cada chegada.


* Pablo Gallindo é professor de francês, na Holanda.



Ser criança em noite de Natal
Cyl Gallindo*

Tantas vezes a fadiga se desmancha
na mão que faz aurora e faz orvalho
e fez a vida fez o homem e faz verdade.

Tantas vezes a aurora se levanta
expondo as manhãs como crianças
nas peripécias sutis da claridade.

Tantas vezes a vida se acorda
e se joga a fazer a coisa feita
que para colhê-la ao homem bastaria.


lançar o coração feito uma rede
a diluir entre nós essa parede
de indiferença erguida a cada dia.

Mas se os dias se vestem destes fatos
dada a colheita de frutos imediatos
tracemos novos rumos sem segredos.

que a partir dum crepúsculo universal
igualitários na posse dos brinquedos
sejamos crianças em Noite de Natal

Recife, dezembro de 2012.





*Cyl Gallindo é poeta, sociólogo, jornalista e membro da APL (da Coluna “A Intimidade da Palavra” – Interpoética)





QUATRO POEMAS DO POETA PERNAMBUCANO FREDERICO SPENCER*



*Frederico Spencer é poeta, sociólogo, autor dos livros “Portal do Tempo” (Edições Bagaço – 1988), “Quadrantes Urbanos” (Editora Livrorápido – 2006) e “Abril Sitiado” (Edições Bagaço – 2011). Vencedor do Prêmio Gervásio Fioravanti da APL, em 1985, membro da UBE – PE, considerado pelo poeta e crítico literário César Leal como uma revelação da poesia pernambucana pós geração 65. Atualmente reside em Jaboatão dos Guararapes.



Piedade*                                                               

Uma visão da praia de Piedade numa noite de
lua cheia onde antes existia a estátua
de Iemanjá.

O espelho da água
a réstia da luz
teu vão vestido
a mão do vento
a pele macia da areia
a derme vestida de sol.
O bico do seio
a penugem da praia
o tráfego das águas
em meus dedos o sal.
O olho da maresia
a espuma do tempo,
a dobra da onda
minha nau perdida
de azul se banha
tua manhã estendida.
A tarde a preguiça:
as pálpebras do dia
os cílios do sol,
a nudez das janelas
os edifícios
a pele do mar.

*do livro “Abril Sitiado”



No véu da noite*

Quando o véu da noite cai
em tua cama te desvenda
nua com o sol nas mãos, a manhã:
a linha que divide norte
e sul de tuas planícies - a água
escorre, o lodo e o sal:
fremindo teu horizonte nasce
de tudo que virou lamaçal
na noite viva, tua agonia:
na cama nua
a noite desce.

*do livro “Abril Sitiado”



Paralelo Oito*

À cidade do Recife, vestida de papel sobre as águas.

No teu dorso de cidade – a giz
traço no meu caderno tuas rotas
até onde o medo me cabe:
inventário de sombras – pátio aberto
sobre o rio mocambos parasitários
à flor de tua pele
a fé de um deus seu povo viça:
pacífico e atlântico azul
o leste desatado – o sol e o mar
trago do tempo: areia e sal
de teus mapas
a solidão de minhas ilhas.

*do livro “Abril Sitiado”



A oportunidade*

Muito cedo chegastes
menino, não te enxerguei
talvez
o medo me tomou
pelas mãos e o tempo
hoje corroído
cobra o que não se fez
das tardes
restam
sobre a mesa repartida
as migalhas
daquilo que se chamaria
pão.
À noite te arrastas
fantasma de caliça e sal
roubando as estrelas
nu te mostras por inteiro:
tuas carnes
como
um farol, não durmo.

*do livro inédito “Código de Barras”



Um comentário:

  1. Que as experiências compartilhadas no percurso até aqui sejam a alavanca para que você possa
    alcançar a alegria de chegar ao destino projetado.
    Adorei o Blog.
    Veronica Hazin

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima