domingo, 22 de janeiro de 2012


Poesia e Realidade Existencial no Mundo Atual

Frederico Spencer*





Nas sociedades, as artes em geral, desempenham um importante papel no processo do desenvolvimento humano. Apropriando-se dos bens culturais, característicos de cada sociedade, a arte tem a função de reconduzir o homem ao seu interior, à sua subjetividade. A cultura difere o homem dos demais animais e o iguala aos demais de sua espécie. A cultura caracteriza o homem como um ser social. As artes nas sociedades caracterizam o homem como um produto de sua cultura.

O homem se fez através da linguagem e esta o distanciou dos outros animais. Na literatura a linguagem assume uma dimensão diferenciada da usual, posto que não se limita à tradução das imagens da realidade aparente, busca transcender esta dimensão por uma outra, a dimensão da linguagem simbólica.

Para a psicanálise o inconsciente é a linguagem mediatizada pela vida real. Para a literatura, sua essência. Para o homem, uma dimensão ainda maior, sua permanência no topo do poder em relação aos demais animais, condição esta adquirida através da aquisição e fomento dos bens de cultura.

A literatura deve assumir no contexto atual um papel preponderante no processo de recondução do homem à sua subjetividade. Servindo-se de matéria extraída do cotidiano e da linguagem usual, tem como função reinterpretar a realidade circundante, emprestando às palavras um novo sentido, reinterpretando esta mesma realidade, através do conceito simbólico.

A linguagem poética reveste a linguagem de novos conceitos e sentidos, utilizando-se do seu poder de síntese e de sua liberdade de experimentação, recria o significado das palavras ultrapassando os limites da linguagem utilizada pelo marketing e pela publicidade, impondo, desta forma, ao pensamento humano novas fronteiras para o acesso aos processos cognitivos de uma realidade subjetiva, elevando o homem a um nível superior de percepção de uma realidade sufocada pelo pragmatismo da vida atual.

O poeta, artífice de um fazer ainda não manipulado pelas leis de mercado, trabalha suas percepções de mundo através das imagens que se formam em seu inconsciente, através de um processo de requalificação das palavras e de redesenho de seus significados, oferecendo ao texto um caráter simbólico, libertando-o do imediatismo da linguagem coloquial.

É neste contexto que a linguagem literária rompe com o papel de instrumento para a comunicação de massa, deixando de servir apenas ao objetivo de representação da realidade, para submergir ao nível da subjetivação e da apreensão de novos valores. Este fato a transfigura numa nova linguagem que perverte os sentidos, recriando o novo, ampliando a percepção humana para o pensamento abstrato. A literatura não só reproduz a realidade, mas a recria, reconfigurando os múltiplos sentidos e significados que surgem através da palavra viva.

*Poeta, sociólogo e psicopedagogo



POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, JUAREIZ CORREYA, LUCILA NOGUEIRA, FREDERICO SPENCER E FERREIRA GULLAR




Inumeráveis as noites*
Natanael Lima Jr


da janela do quarto
vejo a noite transfigurar-se bela
sutilmente bela
única, tímida, frágil
refletindo-se negra
alma, canção, poesia
 
inumeráveis as noites!

o universo se move
e as estrelas parecem imóveis
renegadas, esquecidas, abandonadas
nas madrugadas do teu corpo

inumeráveis as noites!

quis possuí-las
e as vislumbrei despidas
reveladas de corpo e alma
translúcidas vidas

inumeráveis as noites!

*do Livro “À espera do último girassol & outros poemas”
 



Louvor à vida e repúdio à morte de Ernesto Cardenal*
Juareiz Correya

O envio de uma frota naval norte-americana
a águas centro-americanas "é uma bofetada
no libertador Simon Bolívar", afirmou o
ministro da Cultura, da Junta Sandinista,
Ernesto Cardenal.

(DIARIO DE PERNAMBUCO, Recife, 24/07/83)

Ernesto Cardenal, irmão necessário
da nossa América sonhada.
Teus poemas continentais foram ouvidos por Deus.
Teus poemas escritos com sangue,
sob forjadas cadeias e o fogo dos canhões
salmos de verdade e amor
cantados pela liberdade do teu povo
e pelo júbilo de tua terra,
arruinaram o trono do ditador Somoza
e deram-lhe fim mais mortal do que as metralhadoras
e as bazucas benditas da Revolução.

Ernesto Cardenal, irmão revolucionário
da nossa América vilipendiada.
Com o teu coração cultivaste a esperança
dos homens e das mulheres e das crianças
renascidos na tua pequena Nicarágua,
com novo sol, nova luta, novas armas, novo ardor,
reconstruindo a pátria legitimada pela inteira libertação.

Ernesto Cardenal, irmão libertário
da nossa América assassinada.
Teus gritos não foram ouvidos por Deus.
Os gritos de Sandino, de Guevara, de Neruda, de Victor Jara,
os gritos americanos gritados há mais de mil anos
são roubados aos ouvidos de Deus
pelo sanguinário presidente dos Estados Unidos da América Assassina,
que covardemente esbofeteia Bolívar o Libertador
e maquina a tua morte com a outra mão.

(Olinda, PE, julho, 1983)

*do Livro “Amaricanto Amar América e Outros Poemas do Século 20”
 



Quero esse mundo de volta*
Lucila Nogueira

a Pedro Lyra


quero esse mundo de volta
                 não me conformo que ele se tenha perdido

o relógio funcionando
                recuperado de seu mecanismo

tenha ficado calado
                distante como numa ilha

a saudade é o sortilégio
de uma carta devolvida

quero esse mundo de volta
não me conformo que ele se tenha perdido

*do Livro “Mas não demores tanto”     




Abril num dia de sol*     
Frederico Spencer

                   Ao poeta Arnaldo Tobias


Quero falar do meu tempo
não importa se trago no peito, desatada
essa dor informe, canto avesso:
falo ao vento ácido
e calo por amor:
a solidão mais que o medo, é áspera
essa manhã doendo na pele
é flâmula abrasada.
Lavro os rubros signos que inventei
sob os cílios do sol:
a cidade dos homens
me cobre com suas asas de cera.

*do Livro “Abril sitiado”
 



O que se foi*
Ferreira Gullar


O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.
 

Então por que me faz
o coração bater tão forte?


*do Livro “Em alguma parte alguma”


Um comentário:

  1. Adorei a poesia...
    Porque nem tudo que se foi ou vai. fica ou Nao foi!...
    Muitas coisas...inclusive os Seres humanos ou nao humanos..as coisas e seus acontecimentos...principalmente os bons...e acho que o artista remete-se aqui a tais....!
    Podem e devem ficar...E ficam...muito mais...
    Afinal, como dizia o Grande Mario Quintana: "Somente o que estah perdido eh nosso para sempre"... Com Amor e verdade, Roberta Meira.

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima