domingo, 20 de novembro de 2011


Poesia e o Tempo



O que nem Filosofia nem Ciência nos concedem um só verso, um daqueles que Mallarmé dizia “interminavelmente belo” no-lo oferece, porque nele regressamos e nele somos o Tempo que em tudo o mais esquecemos, mas que jamais nos esquece. Este é o mistério, o lúcido e inexpugnável mistério da Poesia: o Tempo — nós como Tempo — tornado sensível, audível, dizível e através dessa aparição nos oferecendo a desesperada e alta eternidade, a familiar “luz perpétua” que nós próprios fabricamos ardendo e vendo-nos arder como árvores vivas no fogo temporal”.



Eduardo Lourenço, in “Tempo e Poesia”, Gradiva Publicações, Portugal

Livres Pensantes, sábado, 12 de novembro de 2011


Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)


Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



Miguel Torga
(1907 – 1995)

Tempo

Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'



Mário Quintana
(1906 – 1994)

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.



Antonino Oliveira Júnior

Ainda que o tempo...

Quero apenas lembrar
E lembrar-te,
Ainda que o tempo, hoje,
seja  impróprio prá falar de amor...
lembro de nós,
como animais sedentos,
suados, insanos,
e eu
inebriado pelo teu cheiro
jogado no ar pela fêmea no cio,
mergulhando  para flutuar,
buscando  o brilho das estrelas
no céu da tua boca...
Mas quero apenas lembrar
E lembrar-te,
Ainda que no tempo de hoje
Seja impróprio falar de amor...
Lembro de nós,
No embate das feras na luta do desejo,
Da paixão sem recato,
Dos carinhos sem medida...
Quero apenas lembrar
E lembrar-te,
Ainda que o tempo de agora
Seja impróprio,
Seja próprio,
Seja dor,
Seja odor,
Quero apenas lembrar
E lembrar-te,
Ainda que o tempo se acabe...



Cícero Melo

Canção do búzio

De onde o canto do búzio? De uma vida
Que lhe deixou em ritmo o pranto fundo?
Quem encantou o búzio foi um mundo
De sonhos de matriz senil, suicida?

Quem inventou no búzio, no profundo,
O canto secular que lhe engravida,
Se não foi peixe ou seres de outra ida
Era, nem deus, arcanjos, nem o imundo?

Que paixões destilaram deste pranto
De sempre morrer e ter-se nulo,
E danado a tecer em seu casulo,
Eternamente, o repetido canto?

Quem inventou no búzio a melodia
De mar e sonho, morte e fantasia?



Natanael Lima Jr

Viemos pelas mãos do tempo

viemos pelas mãos do tempo
pelas mãos dos séculos
a existência em nossas mãos
efêmeras e desregradas

viemos donde tudo é transitório
e o desconhecido,
um sonho irrevelado

o universo é o excesso
das mãos que se arrastam
nas sombras do tempo

viemos pelo desejo de recriar,
transformar, transcender
a dor e ciciar de emoção
a voz que fala à alma
e revela pelas vias coração

julho/2010






Um comentário:

  1. João de Deus "Netto" - CinemaScope23 de novembro de 2011 07:51

    Bonito blog com cenário adequado ao conteúdo. Estou de olho.

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima