domingo, 6 de novembro de 2011


A geração 65 de poetas pernambucanos (Parte II)



Alberto da Cunha Melo

“O fenômeno de surgimento da Geração 65, (pelas mãos de César Leal), foi um paradoxo histórico de caráter democrático. No momento em que as oligarquias uniam-se aos militares para interromper todo o processo que visava a uma maior distribuição de renda no País, não foram os filhos dessas oligarquias os contemplados com o espaço nos jornais e na UFPE. Mas o paradoxo é aparente. 64 não foi 68, quando a ditadura tirou a máscara e botou o capuz. O Brasil é muito grande e eles precisaram de quatro anos para sufocar, mesmo, o que havia de melhor na cultura brasileira.”



O poeta Ângelo Monteiro, companheiro de Geração de Alberto da Cunha Melo, ao lado de outros expressivos nomes da literatura pernambucana, que define sinteticamente: “... a nossa geração começou num compromisso com a língua e com a linguagem, para além das disputas de gosto estético e das posturas filosóficas perante a realidade” (1995, p. 75).



Lucila Nogueira

”[...] A chamada geração 65 é um momento muito forte na literatura brasileira, como a geração Orpheu foi para a portuguesa. Só com certo distanciamento é que se torna possível melhor avaliar”.

(postado por Álisson da Hora, em 13/072009)



Luiz Carlos Monteiro

“[...] Além do seu múltiplo alcance cultural, a Geração 65 pode servir também de material básico para professores da rede secundarista, e mesmo para alunos da graduação universitária, que decerto lucrariam com o conhecimento desta importante geração de autores pernambucanos, alguns ainda em plena atividade.”



Cyl Gallindo*

”Folgo em saber mais uma vez que os notáveis historiadores dessa geração esquecem o meu nome. No entanto, a primeira vez que esses internacionalmente famosos escritores apareceram em livro foi na AGENDA POÉTICA DO RECIFE, por mim organizado. Contém 10 poetas e dez desenhistas, com prefácio do insignificante poeta JOAQUIM CARDOZO, que traçou o perfil de cada um dos futuros gênios jovens de maneira tal que até hoje ninguém conseguiu dele se arredar. O livro ainda contém depoimentos de Audálio Alves, Mauro Mota, Pessoa de Moraes e Aguinaldo Silva.

Foi editado pela Coordenada Editora de Brasília - cujo Diretor ainda está vivo e vigoroso e atende pelo nome de Victor Alegria. Por atos de subversão da Editora, ela foi fechada e, em sua substituição, mais tarde surgiu a Editora Thesaurus, com uma extensa folha de serviços prestados à Cultura Brasileira, a partir de Brasília, onde é sediada.

Eu tenho exemplificado, em palestras, a atitude do "príncipe dos poetas brasileiros" Olavo Bilac que, quando era indagado sobre Augusto dos Anjos, alevantava a cabeça acima dos ombros e respondia com outra pergunta: "quem é este senhor?".

O pobre desconhecido, hoje, tem 48 edições de suas obras, centenas de estudos críticos e universitários, sendo a cada dia mais lido e admirado. O príncipe não tem mais do que 08 edições das suas obras completas. Parece que a História não tem compromissos com o tempo nem com o espaço. A ela interessa a verdade desmistificada, cristalizada, independente da fama, projeção social, poder ou glória de seus personagens. E isso tem desagradado a muita gente.”

*Cyl Gallindo é poeta, jornalista, contista pernambucano, autor de vários ensaios e estudos da maior importância para a história e a sociologia brasileira, membro da Academia Pernambucana de Letras.

(depoimento enviado para este blog em 30 de outubro de 2011)


POEMAS DE ARNALDO TOBIAS, MARCOS ACCIOLY, ÂNGELO MONTEIRO E MAXIMIANO CAMPOS





Arnaldo Tobias
(1939-2002)



De prisões 3

 a Marcelo Mário Melo

 Treze mil presos
(in)comuns
pedem-me
todos os dias
pão e café na mesa
com arcos nos braços
e flechas nos olhos -
o que não impede
de seus filhos
nos domingos
mais livres
exigirem no pátio
balas de mel
do cárcere
do meu peito







Marcus Accioly



POEMETO DO TECELÃO
ou A CANÇÃO TECIDA


a Hermilo Borba Filho, também tecelão de palavras

Tece, tece, tece, tece,
Bem tecida essa canção,
Um a um, fio por fio,
Como faz o tecelão
Que fabrica o seu tecido
De cambraia-de-algodão.
Prende os fios coloridos
No labor da tua mão,
Tece, tece, tece, tece,
Bem tecida essa canção,
Com carinho, com cuidado,
Com silêncio e solidão.
Tece, tece, que tecendo
Cresce, cresce a fiação,
Urde as formas das estampas,
Firma as cores do padrão,
Roda a roda, tece, tece,
Bem tecida essa canção.
Noite e noite, sempre e sempre,
Nunca inútil, nunca em vão,
Dia a dia te aproximas
Mais e mais da perfeição.
Não te falte uma esperança
Nem te falte uma razão
Que tecida por ti mesmo
Faz nascer essa canção.
Tece, tece, muito e muito,
Por dever e obrigação,
(Pois tecer é teu ofício
De poeta e tecelão).
Tece como se tecesses
Tua morte ou redenção,
Com amor e sacrifício,
Rapidez e lentidão,
Muito embora ninguém saiba
Que teceste esta canção
Com os fios do teu pranto
No tear do coração.

Recife, 9-7-1967


Em comemoração do primeiro ano do Teatro Popular do Nordeste (TPN)
Publicado in: Diário de Pernambuco, Recife, 16 jul. 1967





Ângelo Monteiro



Calendário

 Dia após dia, sob ceús sem combate,
Ante folhas que tombam para o inexistente
E ante homens que se movem como pedras
No tabuleiro esquecido de todas as coisas
Persigo o meu caminho
No séquito dos anos. 
Os amigos, como os quadros, mudaram de lugar.
E as lembranças mais fortes
Quando muito são rugas
Na face amarelada do tempo.





Maximiano Campos

(1941-1998)



Retrato imperfeito
 
De tanto lembrar me esqueço
E é de sonhos que construo
O que vivo e busco e mereço.
E assim recordo
Do recordar a lembrança
Num tempo em que criança
Fui o que hoje sou cópia:
Retrato velho e imperfeito
De quem quebrou todos os brinquedos.



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