domingo, 9 de outubro de 2011


A poesia viva de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto

Para a literatura, poeta não morre, encanta-se. Assim, seguindo essa máxima, o blog “Domingo com Poesia” presta esta modesta homenagem a dois grandes poetas pernambucanos Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, ambos encantados no mês de outubro do século passado. As suas presenças jamais deixarão de estar conosco, pois teremos o consolo da poesia imortal.

Manuel Bandeira
(19/04/1886 - 13/10/1968)


Manuel Bandeira, professor, poeta, cronista, crítico e historiador literário, nasceu em Recife, em 19 de abril de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, em 13 de outubro de 1968. Terceiro ocupante da Cadeira 24, eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 29 de agosto de 1940.

É um dos poetas nacionais mais admirados, inspirando, até hoje, desde novos escritores a compositores. Aliás, o "ritmo bandeiriano" merece estudos aprofundados de ensaístas. Por vezes inspira escritores não só em razão de sua temática, mas também devido ao estilo sóbrio de escrever.

Filho do engenheiro civil Manuel Carneiro de Sousa Bandeira e de Francelina Ribeiro de Sousa Bandeira. Transferiu-se aos 10 anos para o Rio de Janeiro, onde cursou o secundário no Externato do Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II, de 1897 a 1902, bacharelando-se em letras. Em 1903 matriculou-se na Escola Politécnica de São Paulo para fazer o curso de engenheiro-arquiteto. No ano seguinte abandonou os estudos por motivo de doença e fez estações de cura em Campanha, MG, Teresópolis e Petrópolis, RJ, e por fim Clavadel, Suíça, onde se demorou de junho de 1913 a outubro de 1914. Ali teve como companheiro de sanatório o poeta Paul Eluard. Sua vida poderia ter sido breve, face à doença. Viveu até os 82 anos, construindo uma das maiores obras poéticas da moderna literatura brasileira.  

De volta ao Brasil, Manuel Bandeira iniciou a sua produção literária em periódicos. Em 1917, publicou A cinza das horas, onde reuniu poemas compostos durante a doença. Em 1919 publicou o segundo livro de poemas, Carnaval. Enquanto o anterior evidenciava as raízes tradicionais de sua cultura e, formalmente, sugeria uma busca da simplicidade, esse segundo livro caracterizava-se por uma deliberada liberdade de composição rítmica. Ao lado de "sonetos que não passam de pastiches parnasianos", segundo o próprio Bandeira, nele figura o famoso poema "Os sapos", sátira ao Parnasianismo, que veio a ser declamado, três anos depois, durante a Semana de Arte Moderna, por Ronald de Carvalho. Antecipador de um novo espírito na poesia brasileira, Bandeira foi cognominado, por Mário de Andrade, de "São João Batista do Modernismo".  

Por intermédio do amigo Ribeiro Couto, Manuel Bandeira conheceu os escritores paulistas que, em 1922, lançaram o movimento modernista. Não participou diretamente da Semana, mas colaborou na revista Klaxon e também na Revista Antropofagia, Lanterna Verde, Terra Roxa e A Revista.   

Recebeu o prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira por conjunto de obra (1937) e o prêmio de poesia do Instituto Brasileiro de Educação e Cultura, também por conjunto de obra (1946).


OBRAS

Poesia
Poesias, reunindo A cinza das horas, Carnaval, O ritmo dissoluto (1924); Libertinagem (1930); Estrela da manhã (1936); Poesias escolhidas (1937); Poesias completas, reunindo as obras anteriores e mais Lira dos cinqüet'anos (1940); Poesias completas, 4a edição, acrescida de Belo belo (1948); Poesias completas, 6a edição, acrescida de Opus 10 (1954); Poemas traduzidos (1945); Mafuá do malungo, versos de circunstância (1948); Obras poéticas (1956); 50 Poemas escolhidos pelo autor (1955); Alumbramentos (1960); Estrela da tarde (1960).

Prosa
Crônicas da província do Brasil (1936); Guia de Ouro Preto (1938); Noções de história das literaturas (1940); Autoria das Cartas chilenas, separata da Revista do Brasil (1940); Apresentação da poesia brasileira (1946); Literatura hispano-americana (1949); Gonçalves Dias, biografia (1952); Itinerário de Pasárgada (1954); De poetas e de poesia (1954); A flauta de papel (1957); Prosa, reunindo obras anteriores e mais Ensaios literários, Crítica de Artes e Epistolário (1958); Andorinha, andorinha, crônicas (1966); Os reis vagabundos e mais 50 crônicas (1966); Colóquio unilateralmente sentimental, crônica (1968).

Antologias
Antologia dos poetas brasileiros da fase romântica (1937); Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana (1938); Antologia dos poetas brasileiros bissextos contemporâneos (1946). Organizou os Sonetos completos e Poemas escolhidos de Antero de Quental; as Obras poéticas de Gonçalves Dias (1944); as Rimas de José Albano (1948) e, de Mário de Andrade, Cartas a Manuel Bandeira (1958).



*Fonte Pesquisa: Academia Brasileira de Letras.


TRÊS POEMAS DE MANUEL BANDEIRA


A morte absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.



Noite morta


Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite. . .

(Não desta noite, mas de outra maior.)

Petrópolis, 1921



Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada






João Cabral de Melo Neto
(06/01/1920 - 09/10/1999)


No dia 09 de outubro de 1999, aos 79 anos, falecia o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, no Rio de Janeiro. Eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 15 de agosto de 1968, tomou posse em 6 de maio de 1969.

Sua obra poética, que vai de uma tendência surrealista até a poesia popular, porém caracterizada pelo rigor estético, com poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes, inaugurou uma nova forma de fazer poesia no Brasil.

Filho de Luís Antônio Cabral de Melo e de Carmen Carneiro Leão Cabral de Melo. Parte da infância de João Cabral foi vivida em engenhos da família nos municípios de São Lourenço da Mata e de Moreno. Aos dez anos, com a família de regresso ao Recife, ingressou João Cabral no Colégio de Ponte d’Uchoa, dos Irmãos Maristas, onde permanece até concluir o curso secundário. Em 1938 freqüentou o Café Lafayette, ponto de encontro de intelectuais que residiam no Recife.

Dois anos depois a família transferiu-se para o Rio de Janeiro mas a mudança definitiva só foi realizada em fins de 1942, ano em que publicara o seu primeiro livro de poemas - "Pedra do Sono".

No Rio, depois de ter sido funcionário do DASP, inscreveu-se, em 1945, no concurso para a carreira de diplomata. Daí por diante, já enquadrado no Itamarati, inicia uma larga peregrinação por diversos países, incluindo, até mesmo, a República africana do Senegal. Em 1984 é designado para o posto de cônsul-geral na cidade do Porto (Portugal). Em 1987 volta a residir no Rio de Janeiro.


A atividade literária acompanhou-o durante todos esses anos no exterior e no Brasil, o que lhe valeu ser contemplado com numerosos prêmios, entre os quais - Prêmio José de Anchieta, de poesia, do IV Centenário de São Paulo (1954); Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (1955); Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; Prêmio Bienal Nestlé, pelo conjunto da Obra e Prêmio da União Brasileira de Escritores, pelo livro "Crime na Calle Relator" (1988).


OBRAS

Poesia
Pedro do sono, 1942; Os três mal-amados, 1943; O engenheiro, 1945; Psicologia da composição com a Fábula de Anfion e Antiode, 1947; O cão sem plumas, 1950; Poemas reunidos, 1954; O Rio ou Relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à Cidade do Recife, 1954; Pregão turístico, 1955; Duas águas, 1956; Aniki Bobó, 1958; Quaderna, 1960; Dois parlamentos, 1961; Terceira feira, 1961; Poemas escolhidos, 1963; Antologia poética, 1965; Morte e vida Severina, 1965; Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta, 1966; A educação pela pedra, 1966; Funeral de um lavrador, 1967; Poesias completas 1940-1965, 1968; Museu de tudo, 1975; A escola das facas, 1980; poesia crítica (antologia), 1982; Auto do frade, 1983; Agrestes, 1985; Poesia completa, 1986; Crime na Calle Relator, 1987; Museu de tudo e depois, 1988; Sevilha andando, 1989; Primeiros poemas, 1990; J.C.M.N.: os melhores poemas, (org. Antonio Calos Secchin),1994; Entre o sertão e Sevilha, 1997; Serial e antes, 1997; A educação pela pedra e depois, 1997.

Prosa
Considerações sobre o poeta dormindo, 1941; Juan Miro, 1952; A Geração de 45 (depoimento), 1952; Poesia e composição / A inspiração e o trabalho de arte, 1956; Da função moderna da poesia, 1957; Obra completa (org. por Marly de Oliveira), 1995; Prosa, 1998.



*Fonte Pesquisa: Academia Brasileira de Letras.

TRÊS POEMAS DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO



“... E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."

(Morte e Vida Severina)



A Carlos Drummond de Andrade*


Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

*Texto extraído do livro "João Cabral de Melo Neto - Obra completa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1994, pág. 79.



Difícil ser funcionário*


Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.


É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.


*O poema acima, escrito em 29-09-1943, revela a decisiva influência de Carlos Drummond de Andrade nas primeiras produções do autor. Inédito, foi extraído dos "Cadernos de Literatura Brasileira", nº. 01, publicado pelo Instituto Moreira Salles em Março de 1996, pág.60.



Cartão de Natal*


Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:
que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

*Texto extraído do livro "João Cabral de Melo Neto - Obra Completa", Editora Nova Aguilar, 1994.



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima