sábado, 2 de dezembro de 2000


WENCESLAU DE QUEIROZ

(Jundiaí/SP, 02/12/1865 – São Paulo/SP, 19/01/1921)
  

Poeta simbolista, cronista, foi também crítico literário. Foi fundador da Academia Paulista de letras, onde ocupou a Cadeira nº 9. Revelou desde a juventude vocação para a literatura, principalmente a poesia. Estreou com o livro “Goivos”, quando cursava o 1º ano de Direito, no ano de formatura publicou o 2º livro de poesias intitulado “Versos”.
Principais obras: Goivos (1883); Versos (1890); Herois (poesias patrióticas – 1898).


Nevrose

Na voragem da infinita
Loucura que me suplanta
Há uma serpente maldita
Que me constringe a garganta.

A noite do agro remorso,
— Remorso que me fragoa,
(Noite em que choro e me estorço...)
De pranto e sangue gerou-a.

Corrompem-se-me os sentidos
Entre mórbidos miasmas:
—— Ouço na treva gemidos,
— Na sombra vejo fantasmas.

Tomam corpo e forma hedionda
Os sonhos meus mais secretos,
Como frenética ronda
De uma porção de esqueletos.

A fantasia nas garras
Leva-me a um páramo torvo,
Abrindo as asas bizarras
Nos céus azuis como um corvo...

N'alma roeu-me a apatia
As rosas do seu conforto.
Como a larva úmida e fria
Rói a carcaça de um morto

E o olvido (ai! corre-me o pranto.. . )
Vai sepultar-me os despojos,
Como farrapos de um manto
Que se espedaçou nos tojos.

Neste incessante destroço,
A razão mais se me afunda,
Como a luz dentro de um poço,
Numa inconsciência profunda.

Como nas noites polares,
De úmida treva retintas,
Farejam ursos nos ares
Abrindo as bocas famintas.

Surgi, visões do passado,
Nesta mudez que me cinge:
Eis o meu seio golpeado,
Sugai-o, lábios de esfinge. . .

II

Na tristeza em que me afundo
Nem ar, nem luz eu não sinto;
Há lia amarga no fundo
Escuro deste recinto.

Acima se os olhos volvo,
Acho treva, e cai-me o pranto;
Suga-me a dor, como um polvo,
O sangue, neste quebranto.

Os beijos que dou nos lábios
Vermelhos da minha amada
Têm os cáusticos ressábios
Da blasfêmia envenenada.

Se toco o pé de uma rosa,
Muda-se em lábio sangrento,
Que me diz, em voz chorosa,
A imprecação de um lamento.

Alguém que me segue o passo
Rouba-me toda a alegria...
Se canto, silva no espaço
A farpa de uma ironia.

Nos astros — laivos de sangue
Eu encontro, quando os olho,
E entre eles perpassa, exangue,
Um anjo, torvo o sobrolho...

Outro anjo, e mais outro eu vejo
Atrás seguirem, tristonhos,
E mortos, nesse cortejo,
Passam-me os anjos dos sonhos...

Os braços ergo às estrelas
Num gesto súplice, e logo
Apagam-se todas elas,
Como a luz de um fátuo fogo.

— Dúvida, morde e remorde
As fibras de um peito exausto:
Lira,* num último acorde,
Quebra-te nesse holocausto



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