ESCREVER – A VOCAÇÃO PARA O AVESSO DAS COISAS
por Alexandre
Coslei*
O que denuncia
um escritor? O que revela a sua inclinação para a literatura? O poeta Rainer
Maria Rilke dizia que a vocação é a confissão íntima de uma necessidade
irrefreável e vital. Para Rilke, o escritor é aquele que se sente obrigado a
escrever. Para muitos, escrever é apenas a arte de sentar-se numa cadeira. Para
mim, é trazer à luz o avesso do mundo.
Img. Reprodução
O
escritor é o avesso
- desde a adolescência foi como defini esse personagem mergulhado no vácuo,
buscando na própria dissolução construir com as palavras um universo que sempre
revela a alma daquele que escreve. Alguns escritores se apressam em dizer que
não fazem da prosa ou da poesia um confessionário, quem diz isso é um
mentiroso, porque todo escritor mente sobre suas reais intenções. Não há
literatura sem algum tipo de confissão, que venha ela criptografada,
envernizada ou camuflada. Talvez, escrever seja dizer a sua verdade fingindo
que é a verdade do outro.
“O
poeta é um fingidor”
- sentenciava Fernando Pessoa.
E foi com Pessoa que eu vivi a
primeira epifania literária. Adolescente, de férias num sítio em Petrópolis,
puxo à revelia um livro da biblioteca e me deparo com quatro versos que agiram
em mim como a Pedra Filosofal. Transformaram meu infantil pensamento de jovem
burguês numa avassaladora consciência crítica. A implosão de um mundo ilusório
deu lugar às ruínas que formam a realidade.
“Os Deuses
vendem quando dão,
Compra-se a glória com desgraça,
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!”
Versos clássicos que constam em “Mensagem”. Por anos a fio essa estrofe
me assombrou, dela desabrochou uma incurável inquietação. Todo o sentido fugaz
que a vida parecia ter na juventude desapareceu diante da desconstrução abissal
que a poesia é capaz de causar. Fernando
Pessoa me apresentou ao avesso e foi a primeira vez que sonhei a pretensão
de ser escritor.
Escrever parecia simples, parecia
fácil no início. Na primeira página em branco descobrimos que é preciso
adestrar a emoção pela razão, que é crucial domar a palavra. Quando nascem as
primeiras linhas, os primeiros parágrafos, o texto ganha o efeito de um espelho
nos impondo o sentimento de uma obra incompleta, incapaz, simplória. É sincero
quem diz que escrever é cultivar a dor. Mas por que escrevemos? Porque algum
livro, num período qualquer, nos convenceu. Quem escreve vicia no isolar-se em
si mesmo, habitua-se ao silencioso deslizar da caneta ou ao tique ritmado do
teclado costurando nossos fragmentos para nos ampliar em narrativas, versos ou
em outros fragmentos que almejam nos trazer sentido. Quem escreve escolhe
existir no avesso das coisas que Drummond
exaltou.
Acredito que todo escritor nasce de um
Big Bang íntimo, sucessivas implosões
que o capacitam a criar as maquetes impalpáveis que se erguem nos livros.
A minha segunda implosão viria quando
conheci um escritor de fato: Víctor
Giudice, pai de um querido amigo. Víctor era a antítese do que eu imaginava
de um escritor. Carismático, divertido, um magistral contador de histórias.
Éramos um grupo de amigos, todos muito jovens, e passávamos horas ouvindo
entusiasmados os causos do Víctor. Meu primeiro contato com a sua obra foi a
leitura de um conto chamado “O Arquivo”,
uma fantástica jornada ao avesso de um homem.
Até conhecer o Víctor eu pensava em
fazer Biologia, depois de conhece-lo fiz o vestibular para Letras. Ao ser
aprovado, foi o Víctor que me levou para conhecer o campus da UFRJ. Este
episódio me recordou um filme americano, repleto de clichês, intitulado no
Brasil como “Encontrando Forrester”, Sean Connery fazia o papel de um
escritor que tutelava um rapaz talentoso, mas em conflito com sua aptidão.
Existem pessoas que podem fortalecer nossa opção por um caminho que hesitávamos
seguir.
A terceira implosão veio com duas
frases que iniciam a “Hora da Estrela”,
de Clarice Lispector.
“Tudo
no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a
vida”.
Foi quando disse sim e confrontei meu
avesso. Que eu seja simplório, inacabado, incompleto, mas literatura remendaria
meus retalhos, escrever anunciava a única redenção possível.
Escrever
é estar no extremo de si mesmo – ensina João Cabral de Melo Neto.
Antes da Internet, dos Blogs e das Redes Sociais, a leitora mais dedicada de
um aspirante a escritor eram as gavetas. Hoje temos o privilégio que muitos não
alcançaram e podemos compartilhar, sem fronteiras, os textos que produzimos.
Uma benção. Às vezes, uma tragédia.
“Chego,
agora, ao inefável centro de meu relato, começa aqui meu desespero de escritor.
Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado
que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph,
que minha temerosa memória mal e mal abarca?” (O Aleph – J.L.Borges)
Jorge
Luiz Borges
trouxe o meu desespero, na grandeza absoluta e inquestionável da sua narrativa.
O Aleph me mostrava a distância entre
escrever e ser escritor, o abismo entre o gênio e o medíocre. O Borges cego,
que germinou numa biblioteca, me fez aceitar o inalcançável, mas também me
convenci que o único patrimônio de uma vocação é a insistência.
“Muitas
vezes pensei quão interessantemente podia ser escrita uma revista por um autor
que quisesse – isto é, que pudesse – pormenorizar, passo a passo, os processos
pelos quais qualquer uma de suas composições atingia seu ponto de acabamento.
Por que uma publicação assim nunca foi dada ao mundo é coisa que não sei
explicar, mas talvez a vaidade dos autores tenha mais responsabilidade por essa
omissão do que qualquer outra causa.” (A Filosofia da composição, de E.A.Poe)
No século 19, Poe reclamava do egoísmo didático dos autores eméritos. No século
21, escritores de talento questionável ganham dinheiro ensinando banalidades
com seus métodos pasteurizados. Sim, o tempo muda os hábitos e precisamos saber
se há benefício nisso. Recebo como afronta quando alguém afirma, com gesto
largo e orgulhoso, que faz literatura comercial. Como? A língua é legado e a
palavra é um patrimônio, jamais pode servir ao mercado ou à vaidade, a natureza
da palavra é partilhar.
Pois termino aqui meus devaneios com a
única máxima que me faz desejar aprender e ir adiante: escrever é seduzir.
Alguém poderá me censurar quando eu
disser que nunca me interessei em aprender a escrever dissecando formalmente as
obras dos grandes mestres.
“O
que tem de bom na galinha assada é que ela não cacareja” – esclarecia Quintana em Poemas para a Infância.
A leitura eficiente não quer
radiografar o método, quer saborear os temperos e assim decifrar a receita. Não
tenho fé em nenhum bom escritor que negue ter brotado de leituras honestas e
vastas. Os legítimos escritores foram persuadidos a escrever por algum livro
que os arrebatou. Fiz Letras sem nunca me apegar a erudição cirúrgica da
autópsia literária.
“A
primeira condição de quem escreve é não aborrecer” – me avisa,
somente agora, Machado de Assis.
*Alexandre
Coslei é jornalista carioca, agregando formação em
Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
*Nota
da editoria:
A partir desta postagem o jornalista
Alexandre Coslei integra a equipe de colaboradores do DCP.
ESCREVER – A VOCAÇÃO PARA O AVESSO DAS COISAS
Reviewed by Natanael Lima Jr
on
08:26
Rating:

Nenhum comentário