domingo, 3 de julho de 2016


ORAÇÕES PARA VAGALUMES – PARTE 1 (CONTO DE FERNANDO FARIAS)



Uma nova experiência no site Domingo com Poesia. Nosso colaborador Fernando Farias escreveu um conto que será apresentado em três partes. A cada semana um trecho do interessante ORAÇÕES PARA VAGALUMES. Realismo fantástico puro.  Um deleite!




ORAÇÕES PARA VAGALUMES – Parte 1
Fernando Farias


Img.: reprodução



Esta história é baseada em fatos reais. Acredite. Compre uma vela e deixe ao lado de sua cama.

Quando completei 20 anos começou a nascer um rabo de jacaré na minha bunda.

Eu morava numa pequena cidade no sertão. População pobre e religiosa, dividida entre o comando do padre e de um pastor evangélico. Alguns espíritas liam a doutrina escondidos. De resto vida provinciana e calma como as vacas.

Foi quando minha tia, já velhinha, me chamou para me ensinar os segredos das orações milagrosas que ela curava os doentes. Minha tia era famosa rezadeira.

Eu não acredito em rezas, mas escutei, decorei, e descobri que o curandeiro realmente tem um segredo que não está nas orações, nem muito menos nas palavras que profere. Nem imagine que são milagres de algum santo ou auto-sugestão. Mas realmente cura.

Talvez eu conte a verdade a você. Como fazem os advogados.

Eu via a tia Benildes sempre de vestido preto, de mangas compridas, num luto eterno. Arrastava sandálias e fumava cachimbo. Um cheiro de vaselina perfumada nos cabelos.

Na mesma semana que ela revelou os segredos das orações, começaram as dores. Achei antes que era dores de coluna, e o rabo foi se desenvolvendo.

Tia Benildes fez uma reza e disse que não seria nada grave, apenas um rabo. Que para cada dom que se aprende a natureza pede sacrifícios. Se eu deixasse de ajudar as pessoas o rabo cresceria.

Ela queria que eu não seguisse o mesmo caminho das minhas irmãs que foram para as cidades do Sul trabalhar nas bucetarias. A mais velha atraia os ricos fazendeiros, cobrando as bucetadas pela cotação do preço do café. Ficou rica e foi à falência num surto de sífilis que arrasou os puteiros paulistas. Ao mesmo tempo em que uma praga atribuída a Deus se alastrou nas lavouras. Dizem foi mandinga do padre.

De inicio as médicas estranharam o formato de um possível tumor saindo de minha bunda. Apenas minha mãe sabia o que se passava. Pedi segredo da anomalia. Minha mãe saiu contando para os vizinhos, mas como ela sempre dizia que falava com as almas das árvores, e ninguém acreditou.

Meses depois minha tia faleceu. E foi no hospital que se descobriu que tia Benildes tinha a vagina na axila. Caso quase raro. Faleceu com 90 anos, sempre fiel ao marido que foi comido por abelhas enquanto dormia.

O rabo de jacaré cresceu. Mas eu conseguia mantê-lo escondido à medida que se espalhava a minha fama de boa rezadeira. Comecei a rezar de graça, depois aceitando uma pequena ajuda até começar a cobrar. Assim como fazem as putas. Minha sobrevivência eram as orações, meu trabalho curar as pessoas que faziam filas em minha casa.
        
Vagalumes. Sempre que eu curava alguém surgiam vagalumes em volta, quando eles não apareciam era sinal que a oração não fizera efeito. Muitos morriam logo. Mas eu avisava a eles, mandava comprar velas e deixar ao lado da cama. Sempre se pode precisar.

Eu vivia o drama de não acreditar nas rezas, entendia que eu não tinha estes poderes. Odiava ter que viver destas crenças sobrenaturais e da ignorância das pessoas. Mas elas me diziam que estavam curadas.

Desde cedo formavam filas. Muitas crianças. Dores de mulher, carne triada, que é o nervo torcido, a espinhela caída, peito aberto, bucho virado, calores noturnos, mal de sete dias, lumbago e pau mole. As orações curavam tudo, menos as dores de dente. Algumas me reclamavam que tinham o sistema nervoso.

Quando me disseram que o homem tinha chegado à Lua não acreditei. Invenção deste povo da rádio. As guerras continuavam nos orientes e até nasciam cabras de duas cabeças.

Um soldado da polícia que apareceu na cidade, dizendo-se neto e herdeiro da valentia de Lampião, se apaixonou por mim. Queria casar, era bonito, alto, mas com a voz de pato rouco. Eu caia na gargalhada ao escutá-lo.

Foi a primeira vez que vi um homem violento. Não aceitou o meu não. Eu já sentia que nunca casaria. Bateu varias vezes em minha cabeça com um cassetete.

Aprendi que as rezas não servem apenas para curar. A viatura da polícia virou na estrada, decepou a cabeça do pato rouco. A casa se encheu de vagalumes e mandei velas para ele.


CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima