domingo, 5 de junho de 2016


OS PIRATAS – TOMO 1





O DCP continua a saga divulgando na web a boa literatura pernambucana e brasileira. Nesta edição estreia a postagem de ‘Os Piratas – Tomo 1’, poetas que participaram dos lançamentos coletivos da ‘Edições Pirata’, movimento editorial pernambucano criado no Recife, em 1979,  pelos poetas Jaci Bezerra, Alberto da Cunha Melo e Eugênia Menezes. O DCP traz aqui a poesia de Alberto da Cunha Melo, Celina de Holanda, Jaci Bezerra, Maria de Lourdes Hortas e Arnaldo Tobias. Continua no próximo domingo. Aguardem!



ASTERISCOS
Alberto da Cunha Melo (1942 – 2007)

Como um suicida que deixa
uma carta em cima da mesa,
para descansar a polícia,
deixo o meu poema no mundo.

Minha dor lógica jamais
necessitou de testemunho
outro, que não fosse o meu corpo,
sob os ataúdes do Céu.

Pisei nas calçadas da vida
(de cabeça baixa) e gritaram;
desci sem nenhuma palavra
e eles morreram de vergonha.

O telefone negro toca
na sala interminavelmente
deserta. Que nova esperança
dirá um telefone negro?

Os meus amigos têm olhos
horríveis, diante de mim.
Mas não pergunto o que lhes fiz:
deixo o meu poema na mesa.

*Poema do livro "Círculo Cósmico".



O LIMITE
Celina de Holanda (1915 – 2015)

Vi os que lutam
contra a opressão
sendo opressores (não há
claros limites entre uns
e outros) e disse:
ai de nós
os que comemos juntos, se
não partilhamos (só alguns
têm certeza da comida
sinal forte de felicidade
para os que têm fome).
Ai de nós
por essa consciência de puros
sem nada para ser perdoado
como o Publicano e o Bom Ladrão. 


DEVER DE CASA
Jaci Bezerra

Era tempo de Deus, e Deus chegava
imprevisto e, quase sempre, ao fim da tarde:

ao chegar, abria as portas que eu fechava
revelando, a um passo, a eternidade.

Tinha, Deus, o esplendor de um feriado
aberto à inocência e aos brinquedos:

nesse tempo de paz e chão molhado
eu via Deus e não tinha medo.

O que sonhava, comigo Deus sonhava,
o sol, o céu, o mar, tudo era nosso:

se queria pecar, Deus não deixava,
a alma desconhecia o que é remorso.

O tempo, com insônia, não dormia,
e a vida, perambulando nos quintais,

apesar de ingênua e mansa já dizia
que esse tempo não voltava nunca mais.

Passou o tempo, passei eu, passou
a vida, a cada dia mais remota:

só não passa, preservando o que restou,
o Deus que sonha e me abre suas portas.



ADAGA
Maria de Lourdes Hortas

Sim
ceifei
e atei em molhos
as  horas deste dia.
Minha adaga:
a palavra.


(in GIESTAS/ ed. Pirata, Recife, 1980)



BREVE BIOGRAFIA (IM)PESSOAL
PARA CADASTRO NO INQUÉRITO
Arnaldo Tobias (1939 – 2002)


eu fui o perfil
de fuzis e baionetas
para cumprir campos
e trincheiras
e não cumpri

eu fui o sentinela
feito de muralha
para impedir flâmulas
e bandeiras
e não impedi

eu fui o soldado
de atalhos e travessias
para entender de rumos
e fronteiras
e não entendi

eu: estatura mediana
(um metro e sessenta e sete
de altura e solidão
peso avaliado
em balanças de agonias
identidade: 352.526
cor: pardo
como todos os gatos à noite
tipo sanguíneo: "A" Positivo
profissão: poeta e boêmio
olhos: de sol e penumbra
cabelos: de neblina e luares
sinais particulares:
um poema tatuato na língua)

que quis ser nas fileiras
o soldado inicial
para morrer por Luísa
a guerrilheira
e não morri



Um comentário:

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima