domingo, 24 de abril de 2016


SEM GRAÇA (E SEM UM DICIONÁRIO DE INGLÊS) – CONTO DE SIDNEY NICÉAS*




Foto: arquivo do autor



Sofrer é para os fracos. Foi. Pensei. Juro que pensei. Quando passei contornando a favela. Onde a maioria das pessoas não entra, elas somente contornam. Tudo tão à margem. À míngua... A língua da mulher era o que eu mais via. Cadê os dentes? O que restava não prestava. Mas dentes para quê quando o que se tem é cachaça e melodia, baby?

Sol a pino. A mulher dançava. Arreganhava. Braços em riste. Balançavam. O short mal cobria o sexo. O top só escondia os peitos pequenos. Pés descalços. Pele morena... Smile banguelo e nem um pouco incomodado. O charm passava longe. Happiness. Era. Parecia uma felicidade de quem diz sem dizer: fuck you! Parecia. Fodam-se mesmo! Eu tenho o direito de viver sorrir dançar cagar na cabeça de vocês! Parecia.

Fosse o que fosse, fui socado. Eu, preocupado com dinheiro sob o ar-condicionado do carro, my car! Guiando num conforto surdo na contramão daquela felicidade. Eu, tão momentaneamente mudo de alegrias. Eu, só eu ali. Esqueci o cliente que me deve uma grana boa. O contrato que o outro demora pra assinar. A demora para publicar o livro novo. A conta da internet, o condomínio, o excesso que não falta àquela mulher... Esqueci.

O barraco era mínimo. Parecia cuspi-la. Havia mais pano dependurado no varal de frente do que na mulher. Pano de fundo perfeito ante minhas imperfeições. Ela dançava à frente. E eu passando. Ela sacudia os braços. E eu passando. Ela sorria expondo as gengivas. E eu pensando. Tanta alegria torta... E eu passando. Ainda ouvi a outra mais a frente gritar: abaixa isso Yngrid mulé!!!

Yngrid... Nem mais pelo retrovisor. A curva minguou o meu olhar intruso. Um cavalo a pastar na esquina. Um cachorro a dormir na calçada. A mulher banguela sumiu. O barraco. A música brega. A vizinha a gritar. A favela em contorno. Yngrid... Pareceu fazer sumir o mundo. Deixou uma agonia em mim. E um sorriso. Coincidência ou não, no dia seguinte o ar-condicionado do carro quebrou. My car! Sorri novamente. Sorry.




*A obra do recifense Sidney Nicéas tem sido revelada sob muitos aspectos. Da peça teatral no início da carreira - “Cinzas da Paixão”, onde dirigiu e atuou - ao curta-metragem lançado em 2010, o autor enveredou por outros segmentos artísticos para expressar sua arte, tendo, contudo, se firmado solidamente na literatura. O autor tem quatro livros publicados: “O Que Importa é o Caminho” (2004), “O Rei, a Sombra e a Máscara” (2010 - título homônimo ao curta-metragem já citado), “A Grande Ilusão” (2012, pela Giostri) e “Vic e o Homem Feito de Nuvens” (2013, pela Giostri), todos recebidos com elogios por todo o país e até no exterior, e prepara um novo romance para 2016. Além de realizar palestras e workshops sobre criatividade e escrita, integra os projetos sociais Sertânia Sem Fome e Pré-Vestibular Solidário (onde leciona Redação para jovens da Rede Pública de Ensino), além do projeto Mascote de Rua, ligado à causa animal. Também é professor universitário, produtor cultural, é fundador dos grupos Literáxia e Mangue Cultural e possui parcerias de sucesso com o escritor e dramaturgo paraense Carlos Correia Santos e o colombiano Carlos Sierra. Conheça mais sobre o trabalho de Sidney Nicéas no site oficial: www.sidneyniceas.com.br 



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