domingo, 20 de dezembro de 2015


CRÔNICA DE DOUGLAS MENEZES (DEZEMBRO DAS ACÁCIAS E AÇUCENAS)




Douglas Menezes / Foto: divulgação



Aqui na terra quente explodem as flores como se fosse abril. Dezembro só de luz das acácias, vários sóis a enfeitar a vida, anunciando uma esperança irrealizável. Difícil viver um otimismo cada vez menos visível. Um dia um escândalo, outro dia mais um. E vivência que segue. As acácias são puras, inocentes e de beleza estonteante, cachos que encandeiam a vista. No entanto crianças são mortas nos crimes estúpidos manchando de vermelho as flores mal desabrochadas. Meninas partindo sem o enfeite das açucenas no cabelo. Câncer que os doutores da mente não sabem explicar. Beatriz partindo também, sem o direito de entender o fascínio das flores.

Enxergo, então, as açucenas brotando nas margens do rio tão sujo quanto bonito aos meus olhos de sonhador. Colho a flor branca, popular, democrática, que nasce onde o feio predomina, nasce para embelezar onde não há beleza. Mas ela se expressa em dezembro e diz da perda e diz da angústia de chorar entes que se foram, flor também da saudade e da tristeza, essa açucena.

Acácia magoando com espinhos a cabeça doída de Jesus, no dezembro das sujeiras dos homens, insensíveis à miséria, à dor dos que não têm nada, sem escola, sem saúde, sem segurança, sem a água que dá vida, porque os homens levaram o que a gente pagou. Jesus, um menino nascido na humildade do exemplo, vê o que fazem até no mês do seu nascimento.

Mas há, em dezembro, as açucenas tão bonitas como as moças bronzeadas desse sol nunca se pondo. Graça e beleza nas duas flores, altivez dessas moças, de peitos arrebitados, no bambolê dengoso e no encarar da existência nunca tão fácil.

Em dezembro, a explosão das acácias, ouro de Minas, cheiro bom, trazendo a espiritualidade para melhorar os homens, dando-lhes a sabedoria que parece ir embora.

Dezembro, mês último. As esperanças alimentam o calor dessa fantasia. Ano que vem, talvez a igualdade fraterna, nunca vinda, mas assim mesmo uma nesga pequena, um fio de luz que apareça nesse túnel e que seja enfeitado de acácias e açucenas...



*Douglas Menezes é escritor e membro da Academia Cabense de Letras



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