domingo, 10 de maio de 2015


DCP CELEBRA ASCENSO FERREIRA

Ascenso foi um dos pioneiros a usar o rádio
no Brasil para divulgar suas poesias.
Foto: Acervo da Fundaj



Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira nasceu em Palmares, Mata Sul do Estado, no dia 09 de maio de 1895. Ele foi um importante poeta pernambucano conhecido por integrar o movimento modernista de 1922.

Sobre Ascenso, o escritor Mário de Andrade declarou: “O ritmo novo que Ascenso Ferreira veio cantar para nós, era, além de novo, emocionante. Por causa da bonita força lírica do poeta e o cheiro profundo de terra e de povo que o poema trazia.”

Para celebrar 120 anos de seu nascimento, o DCP seleciona nesta edição cinco poemas de sua rica e vasta produção.



FAZENDEIRO

Ô Maria! Maria!
Compadre Cazuza vem almoçar
amanhã aqui em casa…
Que é que tu preparaste pra ele?!
Eu matei uma galinha,
matei um pato,
matei um peru,
mandei matar um cevado…
Oxente, mulher!
Tu estás pensando que compadre
Cazuza é pinto?!
Manda matar um boi!!!



FILOSOFIA

Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!


Hora de trabalhar?
— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!



MINHA ESCOLA

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!

À sua porta eu estava sempre hesitante...
De um lado a vida... — A minha adorável vida de criança:
Pinhões... Papagaios... Carreiras ao sol...
Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio...
Jogos de castanhas...
— O meu engenho de barro de fazer mel!

Do outro lado, aquela tortura:
"As armas e os barões assinalados!"
— Quantas orações?
— Qual é o maior rio da China?
— A 2 + 2 A B = quanto?
— Que é curvilíneo, convexo?
— Menino, venha dar sua lição de retórica!
— "Eu começo, atenienses, invocando
a proteção dos deuses do Olimpo
para os destinos da Grécia!"
— Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
— Agora, a de francês:
— "Quand le christianisme avait apparu sur la terre..."
— Basta
— Hoje temos sabatina...
— O argumento é a bolo!
— Qual é a distância da Terra ao Sol?
— ?!!
— Não sabe? Passe a mão à palmatória!
— Bem, amanhã quero isso de cor...

Felizmente, à boca da noite,
eu tinha uma velha que me contava histórias...
Lindas histórias do reino da Mãe-d'Água...
E me ensinava a tomar a bênção à lua nova.



MISTICISMO

Na paisagem da rua calma,
Este poeta nasceu em Palmares.
tu vinhas vindo… vinhas vindo…,
e teu vestido era tão lindo
que parecia que tu vinhas envolvida na tu’alma…
Alma encantada;
ama lavada
e como que posta ao sol para corar…
E que mãos misteriosas terão feito o teu vestido,
que até parece o de Maria Borralheira,
quando foi se casas…!
Certamente foi tecido
pelas mãos de uma estrela fiandeira,
com fios de luz, no tear do luar…
no tear do luar…
O teu vestido era tão que parece o de Maria Borralheira
quando foi se casar…
“Cor do mar com todos os peixinhos…!
Cor do céu com todas as estrelas…!
E vinhas vindo… vinhas vindo…
na paisagem da rua calma,
e o teu vestido era tão lindo
que parece que tu vinhas envolvida na tu’alma…



MINHA TERRA

Minha terra não tem terremotos...
nem ciclones... nem vulcões...

As suas aragens são mansas e as suas chuvas esperadas :
chuvas de janeiro... chuvas de caju... chuvas de santa-luzia...

Que viço mulato na luz do seu dia !
Que amena poesia, de noite, no céu :

- Lá vai São Jorge esquipando em seu cavalo na lua !
- Olha o Carreiro-de-São-Tiago !
- Eu vou cortar a minha íngua na Papa-Ceia !

O homem de minha terra, para viver, basta pescar !
e se estiver enfarado de peixe, arma o mondé
e vai dormir e sonhar...

que pela manhá
tem paca louçã,
tatu-verdadeiro
ou jurupará...
pra assa-lo no espeto
e depois come-lo
com farinha de mandioca
ou com fubá.

O homem de minha terra arma o mondé
e vai dormir e sonhar...

O homem de minha terra tem um deus de carne e osso !
- Um deus verdadeiro,
que tudo pode, tudo manda e tudo quer...
E pode mesmo de verdade.
Sabe disso o mundo inteiro :

- Meu Padinho Padre Ciço do Joazeiro !

O homem de minha terra tem um deus de carne e osso !
Um deus verdadeiro...

Os guerreiros de minha terra já nascem feitos.
Não aprenderam esgrima nem tiveram instrução...
Brigar é do seu destino :
- Cabeleira !
- Conselheiro !
- Tempestade !
- Lampião !

Os guerreiros de minha terra já nascem feitos :
- Cabeleira !
- Conselheiro !
- Tempestade !
Lampião !



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima