domingo, 10 de maio de 2015


CONTO DO DOMINGO

Na delegacia (conto) de Paulo Caldas

Paulo Caldas

Doutor, na verdade, não era. Nem mesmo bacharel, mas fazia o sucesso que faz um bom orador, mesmo sem títulos acadêmicos. Palavra fácil, gestual ora acelerado, ora obedecendo a um ritmo mais moderado. Um paletó preto, surrado, calças de cores indefinidas, óculos de grau e um livro grosso sob o sovaco.
Na feira, em meio a toldos, subia num banco e mandava o verbo. “Este governo que aí está é uma vergonha, uma quadrilha organizada a sugar o povo inocente”. O Sol castiga sua calva com pingos de suor a granel. Cala a boca, corno! Esse nojento em toda feira vem dizer coisa que a gente não sabe o que é. Mais valia, sei lá que diabo é isso. Vai arrumar uma lavagem de roupa anticristo.
Isso ele considerava pregar num Saara, como um conde a falar com passarinhos. Em Vitória de Santo Antão foi preso. Na pregação, esculhambou coronel Aprígio, chefe político local.
Na delegacia, ouviram-se as últimas palavras do comissário de plantão.
- Raspa o cabelo desse frango e recolhe!
A partir daí ficou numa cela de cuecas em companhia de dois marginais. Um de cor escura, alto, magro, olhos esbugalhados, faltavam-lhe uns dentes, de nome Dionísio, vulgo Bode Preto. E um sarará, magro e baixo, Amaro Pedro, famoso batedor de carteiras conhecido por Mãozinha.
Naquele momento eles discutiam qual era o mais cruel com a sociedade.
- Tá na cara que é tu, Bode. Além de arrombar as casas, ainda mata o povo que tá dentro.
- Tás conversando merda. E tu? Sois tão bonzinho, roubando o dinheiro da feira dos pais de família.
- Pera aí, vamos perguntar aqui ao colega que chegou agora quem é o pior.
- Perdão, camaradas, mas é uma indagação difícil por demais. Não saberia responder assim, de chofre, precisaria de mais reflexão, de ouvir outras pessoas.
Os dois continuaram o bate-boca até que Mãozinha resolve mudar de assunto.
- Como é mesmo o nome do colega novato?
- Justiniano, pode me chamar de Justo, ao seu dispor.
- E por que o doutor foi preso?
- Como sempre de forma injusta, meu caro Bode. Minha luta é defender a igualdade de direitos entre os cidadãos, com as mesmas oportunidades para todos.
- Só por isso?
- Só por isso, Mãozinha.
- Pois é, doutor, essa polícia não entende a gente.


(*) trecho adaptado de texto do livro O caso eu conto como o caso foi, de Paulo Cavalcanti.



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