domingo, 8 de fevereiro de 2015


POEMAS DO DOMINGO

Poemas de Marcelo Mário de Melo, Leonardo Silva, Malungo e Maria de Lourdes Hortas


Culinária da poesia
Marcelo Mário de Melo

Quem manda em mim é a palavra
eu só espero por ela
que pode vir pela porta
ou entrar pela janela
trazendo os alimentos
que eu ponho na panela.

Traz a palavra cantada
dançando melodiosa
traz a palavra encrencada
ponta de espinho de rosa
traz a palavra pintada
objeto esculturosa.

Traz a palavra ligada
idéia acesa na tocha
traz a palavra moleca
mijando em cima da rocha
traz a palavra-malícia
que do poeta debocha.

Traz a palavra lembrança
traz a palavra visão
traz a palavra delírio
e traz a palavra-pão
traz a palavra-medula
traz o verso-cidadão.

Traz tudo que pulsa e vive
entre o sim e o não
traz tudo que vem da nuvem
traz tudo que vem do chão
traz tudo que deita e dança
na hora e na tradição.

Traz tudo que vem da vida
de todos de qualquer um
que o poeta recolhe
sem preconceito nenhum
lava descasca e cozinha
servindo o prato comum.

Presente destino
Leonardo Silva (Buíque/PE)

Impossível esquecer o passado
Muito mais meu presente destino,
Feito homem ou feito menino
Neste mundo de louco jogado.

Vejo triste o terror ao meu lado
Sem poder nem ao menos tocar,
Sou bandido, sou pobre sem lar
Um mendigo por todos deixado.

Meu barraco ao fogo queimado
Minha vida de graça morrendo,
Você finge que não tá me vendo
E eu fingindo que estou acordado.


Ilustrações de Cuba*
Malungo

Para Felix Farfan

Um céu bandeiroso
tremulando
em nossas almas latinas
olhos de chuva
lentes
no vidro embaçado datarde
avenidas vermelhas
carros rosa-choque
um pedestre lilás
ruas de chumbo
veículos carrancudos
de duzentos anos atrás
anciões de quatro rodas
Fidel e Guevara
amorcegando um caminhão
amarelo guaracha
mãos fugitivas
anseiam pelo mar
liberdade de navio
automóveis verdes
o amadurecer democrático

*Do Livro Digitais


Mala*
Maria de Lourdes Hortas

Espécie de mala
a alma
do poeta
porão onde se guarda
tudo o que serve
para a poesia:
cartas por enviar
labirintos de intenções
partituras inacabadas
vertigens inominadas
catedrais de silêncio
mapas indecifrados
eclipses, horizontes
icebergues, vulcões
sonatas de chuva
retratos em sépia
arquivo de auroras
e crepúsculos
maravilha de instantes
tempo avulso
que se escoa e nos leva
na voragem da ciranda.

O que guardo na alma
Abro na poesia:
Nela interrogo a vida
Dia após dia.


*In Rumor de Vento, 2009



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