domingo, 9 de novembro de 2014


POEMAS DA SEMANA

Poemas de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Raimundo de Moraes, Alexandre Coslei e Cida Pedrosa


Nu*
Manuel Bandeira

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...

*In Estrela da manhã, 1960



O procurador do amor*
Carlos Drummond de Andrade

Amor, a quanto me obrigas.
De dorso curvo e olhar aceso,
troto as avenidas neutras
atrás da sombra que me inculcas.

Esta sombra que se confunde
com as mulheres gordas e magras,
entra numa porta, sai por outra
como nos filmes americanos,

e reaparece olhando as vitrinas.

Meu olhar desnuda as passantes.
Às vezes um bico de seio
vale mais que o melhor Bedecker.
Mas onde seio para minha sede?

O andar, a curva de um joelho,
vinco de seda no quadril
(não sabia quanto eras pura),
faço a polícia dos dessous.

Eu sei que o êxtase supremo,
o looping no céu espiritual
pode enredar-se, malicioso,
no que as mulheres mais (?) escondem
no que meus olhos mais indagam.

O dia se emenda com a noite.
As mulheres vão para a rua
mas a mulher que tu me destinas
talvez ainda esteja em Peiping.

Desiludido ainda me iludo.
Namoro a plumagem do galo
no ouro pérfido do coquetel.
Enquanto as mulheres cocoricam
os homens engolem veneno.

E faço este verso perverso,
inútil, capenga e lúbrico.
É possível que neste momento
ela se ria de mim
aqui, ali ou em Peiping.

Ora viva o amendoim.

*In Brejo das almas, 1934



Ciclo*
Raimundo de Moraes

A cama espinha teu corpo
e na meia-noite insone
teu desejo ofusca a pálida minguante.
Sou eu que me vingo e surjo com as marés,
semente no chão solta pela preamar.
Sou eu, homem, que venho e broto
os lenhos que crescem nos Ciclos, a seiva que corrói.
Raiz que afunda a coifa no teu desespero
sorvendo a inquietação em fome crescente.
Ou o tronco largo,
silhueta em poros na anatomia dos abraços.
Não, não passarão as estações.
Porque todos os homens me levarão a ti.
No teu corpo continuo em verdes frutos
que amadurecem em escândalos no verão.

*Transcrito do livro “Poemas homoeróticos escolhidos”



Viviam

Alexandre Coslei


Vivian, só esse teu olhar tão verde
Reflete a minha fome, minha sede
De logo te possuir nos meus braços,
Dois corpos nus enroscados em laços.

Teu toque... Teu carinho é uma rede,
Estrada interrompida, uma parede...
É meu amor lançado aos teus abraços,
Suspiros ardentes, lábios devassos.

Seios, lascívia, néctar sagrado,
Chamas num coração extasiado.
Tesão, gozo, fluente descompasso.

Tua pele alva, teu beijo molhado,
A voz doce do orgasmo venerado,
Éden onde repousa o meu cansaço.



O caminho da faca
Cida Pedrosa


parte em arco
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga

cruza a dor, o sonho
escuta

zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes

parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança

desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade

para qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima