domingo, 5 de outubro de 2014


POEMAS DA SEMANA

Poemas de José Luiz Mélo, Alberto da Cunha Melo, Jaci Bezerra, Domingos Alexandre e Ângelo Monteiro


REMEMORANDO SEIOS E PERÍNEOS*
José Luiz Mélo

Eu ontem enterrei o meu defunto
envolto num lençol de parafina
molhado no suor das oficinas
eu mais me parecia um presunto

Que um defunto, e ia de pés juntos
multiplicando rugas nas meninas
tranquilas, pardacentas, pequeninas
intrometendo-me nos seus assuntos

De pés juntos seguia liquefeito
tamborilando um samba satisfeito
rememorando seios e períneos

A boca me fechando um esparadrapo
O queixo me prendendo um guardanapo
E me cobrindo um frio de alumínio.

Jaboatão/1966

*In Proibições e impedimentos, Edições Pirata, 1981, p. 17



CERTO SERTÃO*
Alberto da Cunha Melo

ao José Luiz

Quando a chuva vier, verás repletos
os buracos que tens na tua mão,
e só assim não mais os teus insetos
se enforcam nas roseiras do sertão.

Esconde no teu corpo os indiscretos,
Os caprinos anelos de evasão:
Quando a chuva vier, verás quietos
E inúteis todos eles na estação.

Limpa dos homens, da semente, a cova
que um deus menor cavou disposta em cruz,
e aproveita da terra, à lua nova,

seus olhinhos de mato, seus umbus:
- que não demora o espaço que renova
seu orvalho, seu Pan, seus urubus.

*Poema dedicado ao poeta e ficcionista José Luiz Mélo, na década de 60.



ENTRE / VISTA*
Jaci Bezerra

O amor? quem o semeia
sente o rosto abrasado
e entrega, não receia,
receios ao amado

O amor, rosa desperta,
nos ensina, esfolhada,
a vida, a mais incerta,
é mais vida doada

O amor? doce trinado,
canto aceso e doído,
é, mesmo se doado,
cortante e duro vidro

O amor? a nota grave
do pássaro, se canta?
não, a manhã da ave
ardendo na garganta

*In Lavradouro, 1973, p. 95



BOM DIA, CUNHA MELO
Domingos Alexandre

Não é assim de longe,
de tão longe,
que queremos ouvir-te,
como se agora
cada palavra
fosse um adeus definitivo
e sem remédio,
como se de repente
quisesses transformar-te
numa nuvem longínqua
ou numa árvore estranha
perdida para sempre
no meio da floresta.
Precisamos ouvir-te
de perto, como antigamente,
voltar a cruzar
o vinho magro de nossos copos
numa noite de chuva
ou de verão tardio
lá na Rio Branco
antes que se apaguem
as últimas lâmpadas do cais
e o Recife comece
a crescer, outra vez,
sobre o arco ( mais curvo)
de nossos ombros.



TRIGÉSSIMO TEMA SEM JÚBILO*
Ângelo Monteiro

Em seus braços de chamas debatendo-se,
no insaciável velar, o candelabro
do santuário ao centro não repousa?

Qual luz que de si própria se confunde,
traspassando os vitrais, sem penetrá-los:
tocar não pode o centro inviolado?

Vedado o espaço, fonte ou áureo bosque
- de que vale o velar, se flamejante
ou sombrio não se lhe abre o santuário?

Chagando a doce porta dos reflexos
da longa fome ou fúria, por que aos braços
acesos não se rende a doce porta?

Por que não se faz fonte em sua rocha
lacrada, que se nega, a quem ardendo
de espera se debate em seus umbrais?

Por que não se faz fonte de uma vez
pra matar, com seu jorro, o mal aceso
que ele traz, candelabro, nos seus braços?

E, se fonte, juntasse no seu jorro
o candelabro ardendo: e se fundissem
na comunhão das chamas e das águas?

Recife, 1972/1974

*In O inquisidor, 1975, p. 47



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