domingo, 12 de outubro de 2014


O CONTO DA SEMANA

Sábado (conto) de Marilena de Castro*

Img: Reprodução


Na noite de meu aniversário, enquanto apagava a vela do bolo, a camisola esquecida no banheiro tornou-se chamas. Corri até lá e esbarrei com Eliza. Ela estava com um cigarro aceso e um sorriso manso. Nunca fomos amigas. O nosso relacionamento era através de Paulo. Suas visitas eram sempre para pedir receitas para ansiedade e depressão. Queixava-se muito de Carlos para Paulo.

Eu sempre fora cética em relação às reclamações de maus tratos sofridos por elas e pelos filhos – ceticismo que persistiria, se não fôssemos a um jantar no apartamento do casal. O prédio parecia mais velho do que era. Térreo sem cor janelas com grades grossas descascadas. Dentro o ambiente me despertou angústia mal iluminado e abafado. A mesa fora coberta com linho branco castiçal com velas acesas pães uvas outras frutas de época vinho e peixe. Nos cantos da sala livros amontoados, discos de vinil empoeirados, junto de uma velha vitrola, caixas vazias e cadeiras quebradas. E ao redor da mesa, os filhos varões usavam o quipá como se pesasse sobre a cabeça e o dono da casa, Carlos, lia um trecho da Torá. De olhos baixos, Eliza e as meninas tinham as cabeças cobertas com lenços brancos. Escutavam atentas e cansadas. Logo rezariam as orações do sábado. Tudo ali parecia transitório.

E a mulher de olhos azuis expressivos, mãe de quatro filhos, sem ar, desmaiara. Havia tanta tristeza em seus olhos como os matizes escuros de uma noite sem luar. Cigarro aceso, muita fumaça, pouco ar, vida sufocada, sem ar. Eliza vai morrer, dizia choroso Carlos.

O diagnóstico não tardou: era câncer no pulmão. Talvez tenha sido mais carinhoso com a morte do que com a vida.


*In Contos de Oficina, p. 37/38



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