domingo, 10 de agosto de 2014


Um pouco de Clarice Lispector: “A fuga” e a vida

Publicado em obvious por Gabriela Souto*

Img: Reprodução


As personagens femininas em imagens de sua vida cotidiana, os processos epifânicos, os devaneios e as revelações são marcas estilísticas muito conhecidas a respeito da escrita de Clarice Lispector. Na leitura do conto “A fuga”, a identificação de tais marcas também ocorre: uma mulher em sua rotina de 12 anos de casada, que, em um dia abafado de pré-chuva, sofre um momento de iluminação que a leva a uma iniciativa: ir embora. Contudo, considerando-se a narrativa de uma perspectiva não só literária e de gênero, mas antes e demasiadamente humana – uma vez que a literatura dá nova forma à vida e nela se inspira – um dos caminhos de leitura revela confusões psicológicas que imprimem um sentimento de autoenganação quanto à vida, suas escolhas e decisões; de como o ser humano, muitas vezes, tenta se convencer, nem que seja por um período de tempo, de que algo logo mudará, apenas para, em seguida, voltar à rotina com algum sopro de coragem e revigoramento. Em resumo: os modos de fugir da fuga.

O conto “A fuga” principia arremessando o leitor no relato, sem explicar onde, quem ou por quê: Começou a ficar escuro e ela teve medo. Essa contenção de informações contribui para a não diluição da intensidade dos efeitos que o texto proporciona: muitos podem se ver nessa personagem, ao menos uma vez já foram lançados em um momento aflitivo que parece sumir com todas as referências.

Tal início revela uma situação crucial e entrega motivos que perpassarão toda a narrativa: o atraente e assustador desconhecido; as indecisões; e o não sentir como consequência da rotina. Além disso, enquanto a protagonista segue por uma marcha de luta em um ambiente inóspito, encharcando-se pela chuva, os demais transeuntes parecem andar em outro plano, impermeáveis sob seus guarda-chuvas e a olhando com estranheza. Quando se passa por um momento aflitivo, parece mesmo que os outros têm uma vida sempre mais fácil e simples, e a tempestade cai só sobre quem sofre.

Quis sentar-se num banco do jardim, porque na verdade não sentia a chuva e não se importava com o frio. Só mesmo um pouco de medo, porque ainda não resolvera o caminho a tomar. O banco seria um ponto de repouso. Mas os transeuntes olhavam-na com estranheza e ela prosseguia na marcha (LISPECTOR, 1979).


A partir daí, percebe-se o cansaço e a opressão que a recém-descoberta liberdade tem causado à personagem. São muitas dúvidas que a segurança do lar de casada há muito não a impunham: O que vai acontecer agora?; Que é que eu faço?; Como foi que aquilo aconteceu?. Os doze anos de casamento que ela tenta deixar para trás pesam tanto quanto a angústia da liberdade. Voltar a si e perceber que tudo ainda existe fora da habitual rotina é, simultaneamente, libertador e amedrontador. Esse é o ponto essencial para o processo de autoenganação, começando-se por forjar o fato de que só há alegria e alívio frente a uma decisão tão definitiva quanto a de deixar o chão que até então a susteve, ainda que este também a fixasse para trás. E o medo? Será mesmo tão pouco?

Não havia, porém, somente alegria e alívio dentro dela. Também um pouco de medo e doze anos (LISPECTOR, 1979).

O porto de segurança e aprisionamento, no conto, aparece por meio da figura do marido, a qual é contraposta por outra figura masculina, o mar, que representa a liberdade. O mar é forte, um caminho que, mesmo por escolha, pode carregá-la, ao mesmo tempo em que fascina e seduz, assusta, por não se saber da sua profundidade. Como se sustentar assim, tão livre? Tem como se acostumar a viver em profundidade, talvez numa queda sem fim? Foi essa a escolha que a protagonista fez quando saiu de casa: não ter mais onde fixar os pés.
O mar revolvia-se forte e, quando as ondas quebravam junto às pedras, a espuma salgada salpicava-a toda. Ficou um momento pensando se aquele trecho seria fundo, porque tornava-se impossível adivinhar: as águas escuras, sombrias, tanto poderiam estar a centímetros da areia quanto esconder o infinito (LISPECTOR, 1979).

O marido é a personalidade oposta à desconhecida e profunda escuridão e à liberdade de movimentos. Sua conhecida presença age como uma lâmpada do bom senso, a luz que faz a mulher enxergar limites, tolher pensamentos, não perder tempo com o que seriam coisas inúteis; mas inúteis para quem?:

Ele ficará surpreso? Sim, doze anos pesam como quilos de chumbo. Os dias se derretem, fundem-se e formam um só bloco, uma grande âncora. E a pessoa está perdida. Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa. Seus gestos tornam-se brancos e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la. Vive atrás de uma janela, olhando pelos vidros a estação das chuvas cobrir a do sol, depois tornar o verão e ainda as chuvas de novo. Os desejos são fantasmas que se diluem mal se acende a lâmpada do bom senso. Por que é que os maridos são o bom senso? (LISPECTOR, 1979).

A personagem está confrontando duas escolhas: a de "hoje", ir embora, ser livre, lançar-se à ventura do mar; e a feita anos atrás, quando já parecia cansada de não saber lidar com a rotina da liberdade, com a falta de estabilidade: Ela ri. Agora pode rir... Eu comia caindo, dormia caindo, vivia caindo. Vou procurar um lugar onde pôr os pés...

No "agora", atitudes do passado são rememoradas sob uma perspectiva que as considera risíveis quanto ao contexto de vida atual e às mudanças que os anos trazem e carregam.

Em todo esse momento de devaneio e questionamento, a mulher faz afirmações com leve ironia, as quais indicam que ela sabe que voltará para casa. A grande revelação, então, sugere que, depois de tantos anos com pé firme, depois de 12 anos que pesam como quilos de chumbo, essa grande âncora já não permite que ela se entregue ao mar, que seu navio parta sem saber ao certo o destino e a profundidade.

A idealização da fuga seguiria o seguinte roteiro: muito calor e abafamento, que tem como consequência uma aliviadora chuva, a qual traz frescor e serenidade. Contudo, o resultado não é o ideal: depois da chuva, vem um frio que a toma por dentro.

Oh, tudo isso é mentira! Qual a verdade? Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Volto para casa. Não posso ter raiva de mim, porque estou cansada. E mesmo tudo está acontecendo, eu nada estou provocando. São doze anos. (LISPECTOR, 1979)

Há doze anos não sente, mas sentir é perigoso e instável. E a falta de dinheiro? E como ser uma senhora desacompanhada? E toda a novidade? Um movimento comum do ser humano frente a uma escolha que oferece riscos: encontrar motivos para voltar, pois fugir seria demasiado audacioso. Todo impulso, toda a coragem... Tudo mentira e representação. Já não se sabe quem se é, o que é só uma convenção, qual é a rotina a seguir... De repente, a única alternativa é fugir da fuga; voltar, porque o movimento - interno ou externo - é esse. Enfim, ter onde pôr os pés: luz e terra firme.


*Gabriela Souto é escritora, roteirista, compositora e colunista da obvious



Um comentário:

  1. Gosto muito da Clarice Lispector, e seu comentário sobre "A Fuga", Gabriela, está maravilhoso...

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima