domingo, 30 de março de 2014


Um dia que desafia o tempo

por Frederico Spencer*













Foto: Arquivo JB

No último dia 26 postei no Facebook um poema, intitulado Abril Sitiado e, me deparei com um problema: qual enunciado utilizaria para postar o mesmo? O que escreveria para fazer a referida postagem? Terminei escrevendo assim: Estamos no mês de aniversário dos cinquenta anos do golpe militar ocorrido neste país, publico um poema. Veio-me a dúvida, este enunciado serviu para enaltecer o referido golpe ou ajudou a descer o malho, que era a minha intenção!

O aniversário está sempre ligado à comemoração, de alguém ou de alguma data. Como comemoração entendemos algo prazeroso, muita comida, bebida, muita festa! Então, imaginem a minha dúvida. Fiquei preso numa questão de semântica.

Numa destas coincidências que acontecem vez em quando, peguei na estante o livro “Não espere pelo epitáfio...”, do professor, filósofo e teólogo Mario Sergio Cortella, abri uma página, caiu no capítulo: Comemorar o terror. Num trecho deste capítulo estava escrito: “é necessário, por estranho que pareça, comemorar também o terror. Comemorar para repelir a repetição futura; recordar para negar a reincidência; rememorar para afastar a miséria espiritual. É fundamental para a trajetória humana que possamos lamentar a fragmentação da fraternidade e a vitória circunstancial do pavor.”

Passados cinquenta anos, sentimos ainda em nosso cotidiano o ranço dos anos de chumbo - sua sombra ainda paira sobre nossas cabeças. Vivemos o rescaldo daqueles dias onde se institucionalizou a violência, a censura, os atos institucionais como meios para a implantação de uma nova ordem social e política. Aprendemos a respeitar a subordinação, a falta de decoro e a esquecer a ética, tudo isto nos foi ensinado através da tortura, das prisões arbitrárias e pelo peso do cassetete.

Nas ruas repetimos ainda hoje os sequestros relâmpagos, a tortura dos assaltos, o esquartejamento de corpos, as tocaias nos pontos de ônibus, a invasão de domicílios, o toque de recolher, agora voluntário. Sobrou o lixo dos anos de chumbo!

Em suas provocações filosóficas, Cortella termina sua crônica citando o grande médico escritor Pedro Nava: “Eu não tenho ódio; eu tenho é memória”.

*Frederico Spencer é poeta, produtor cultural, sociólogo e psicopedagogo






4 comentários:

  1. Parabéns Frederico pelo vigor do seu texto. Comemorar o terror, excelente!

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  2. Já vi em alguns eventos os locutores dizer, por exemplo, “estamos aqui para comemorar os 10 anos de falecimento do escritor...” e todos caem de pau no locutor. Também tenho minhas dúvidas, apesar dos argumentos do professor Mario Sergio Cortella, creio que coisa ruim não se comemora. Mas a morte de um General como o Emílio Garrastazu Médici ou um Augusto Pinochet deve ser sim comemorada todos os anos, com vinhos e fogos de artifícios. Alguns divórcios também. Celebrar, exaltar, festejar, solenizar golpe militar não é de bom tom. Talvez o certo é um esquecimento total. Ou o certo seria uma cerimônia fúnebre de Lamentação do Golpe milico-civil-fascista. Mas é bom sempre lembrar o que estes bostas fizeram. Para jamais esquecer.

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  3. Comemorem então o facto* de tanto hoje como ontem continuarem activas a vossas moralizante-mente discordantes vozes sobre o sucedido à época ...
    Passa assim o evento a ser utilizado como mera referência temporal dando por sua vez ênfase a uma critica que se quer actual e comemorada essa sim.

    * "facto" Eu de facto estive lá ... "fato" Eu uso fato com gravata ...
    O acordo ortográfico é mais um erro dos iluminada-mente estúpidos fascistas da língua Portuguesa ... Mas isso são contas de outro rosário, sem mais até breve e bem-hajam.

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  4. Há ditaduras e ditas duras... Ambas para gostos, gozos e desgostos de muitos. Qual delas ainda reveste nossa tênue casca de democracia? Valeu, Frederico, Natanael, Farias e João!

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima