domingo, 2 de março de 2014


O Conto da Semana

O baile (conto)* de Marco Polo Guimarães

Foto: Reprodução

Certa vez eu e Nassib resolvemos ir ao Baile Municipal do Recife, o mais importante e mais fechado do carnaval. Só comparecia quem tivesse dinheiro e status. O traje obrigatório era smocking para os homens e longo para as mulheres. Ou então fantasias sofisticadas, feitas com material de primeira. Ir ao baile era um pequeno investimento. O benefício era sair nas colunas sociais.

Eu e Nassib inscrevemos um imaginário grupo de dez universitários que iriam participar do concurso de fantasias. Seria o grupo Caboclos de Lança do Asfalto, uma estilização urbana do maracatu de baque solto. Fizemos um projeto minucioso, com descrição das fantasias, material utilizado, evoluções, coreografia individual dos destaques e trilha sonora. O projeto foi aprovado e recebemos dez ingressos especiais para concorrentes.

 Dias antes vendemos oito ingressos para conhecidos, por metade do preço, garantindo dinheiro para a bebida e a comida. Explicando que as fantasias já estavam no clube, entramos de camiseta, jeans e tênis, pela entrada exclusiva aos participantes.

Passamos o baile todinho sem sermos incomodados. Nesse tempo ainda não havia necessidade de segurança ostensiva. Os poucos estranhamentos entre homens ciumentos, cismados ou, simplesmente, bêbados, eram imediatamente neutralizados por parentes e amigos.

O baile se revelou um tédio como todos os outros bailes de carnaval. Pessoas pulando sem sair do lugar, suando, cantando aos berros, suando. O único episódio interessante ocorreu quando o dia já estava amanhecendo.

Numa mesa onde havia vários casais, de repente uma mulher ficou em pé sobre uma cadeira e, levantando totalmente a saia, começou a gritar: Eu quero dar a boceta!

Por alguns intermináveis segundos de estupefação todos ficaram congelados, até assimilarem o inusitado. Então um homem, provavelmente o marido, voou em cima dela e derrubou-a no chão. Os outros saíram do encantamento e rodearam o casal tirando-o da vista dos demais e retirando-o do salão.

*Transcrito do livro Autópsia do bípede, 2013, p. 85



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima