domingo, 17 de novembro de 2013


Poemas da Semana

Poemas de Arnaldo Tobias, Samuca Santos, Juareiz Correya, José Inácio Vieira de Melo e Fred Caju

Sem título
Arnaldo Tobias*

Img: Reprodução

Pelo que bem pareça
uma palafita
não é uma embarcação
segura
é uma canoa furada
(encalhada)
de porco na lama
não é uma arca
feito a de Noé
muito embora
embarque
a bordo (pro/lixo)
pessoas como bichos

em suma:
uma palafita
é o esqueleto
e o féretro
do seu arquiteto.

*Arnaldo Tobias foi um poeta, ficcionista, editor, artista gráfico, nasceu em 15 de novembro de 1939. Pertenceu à Geração 65 e atuou intensamente na vida literária do Recife, onde faleceu 2002.


Ars poética
Samuca Santos*

Img: Reprodução

A ideia está no ar
Pegue-a
Usando a suave firmeza
Com que se aperta
A mão do amigo
:quente
Nem morno nem brasa
A mão que acalma o filho
Molda-se na argila
E faz versos pra amada
Pegue
Areia pra fazer cristal
Farinha pra bolo de feijão
Matéria espiritual
Carinho zelo tesão
Agora solte o poema

*Samuca Santos foi poeta, radialista, nasceu no Recife em 1960, foi um dos fundadores do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco, onde faleceu 2013.


Sem amanhecer*
Juareiz Correya (PE)

Img: Reprodução

amanhece.
mas eu sinto que não amanheço

sombras amadurecem em meu rosto
e um cansaço eterno mora neste corpo
que eu pensei guardar
revivido para hoje.

amanhece agora
- a cidade está pronta para o dia que nasce
limpa e clara se instala a manhã
no coração dos homens que despertam,
sem sombras no rosto
e sem cansaço,
renascidos também.

amanhece.
só eu não vejo a luz e os caminhos.

*Do livro Americanto Amar América e Outros Poemas do Século 20, 2010


O ser e o tempo
José Inácio Vieira de Melo (AL)
 
Img: Reprodução
Eu chego no silêncio que queima
as quatro ferraduras do tempo
e encontro a inesgotável jazida,
catedral do rubi que me habita.
Na madrugada sonho por todos os rumos
com o gesto que inventa o cristal das palavras,
a surpreender as pedras com a chuva
derramando em seu ventre a escritura sagrada.
Agora, apenas ando com os pássaros
a escutar as belezas da minha terra
e descasco as parábolas da salvação
a apalpar a medula que me carrega.
Escuta, meu amor, dos confins do dia,
a chegada da noite — cortina de versos
que revelam as estrelas de abril
aos meus olhos calados de tanto ver.


O papel da vida*
Fred Caju (PE)

Img: Reprodução
  
Sobre um pedaço de papel
eu alcanço o alto do céu,
um frágil e simples pedaço
me deixa forte como o aço.
Nele, que a água destrói,
é que a vida se constrói;
nele, que o fogo consome,
é que eu deixo o meu nome;
nele, que o vento carrega,
a minha vida se entrega;
nele, que tua mão amassa
é onde minha vida passa;
nele, rejeitado, ao chão,
ponho todo o meu coração.
O papel que você guarda
da carta que lhe agrada
ou o que você joga fora,
é o mesmo em que outrora
fiz um verso sem medida
te chamando para a vida.

*Do e-book Pentágono



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima