domingo, 19 de maio de 2013


O Índio Enganou Piaget


por Frederico Spencer*
frederico_spencer@hotmail.com



  


 Imagem: Reprodução


A cena acontece como em qualquer comunidade indígena: crianças livres correm, pulam no rio, inventam brinquedos, brincam com a terra e a água, bebem do rio, dormem ao relento nos dias de festa, aprendem com os mais velhos através das estórias de seus antepassados. Com as lendas, por trás das chamas de uma fogueira que queima o frio, sonham, experimentam a realidade através das experiências vivenciadas pelas brincadeiras construídas no seu cotidiano, assim, dormem ao final do dia, sonhando com o nascer de outro sol.

O adulto da aldeia participa das brincadeiras, qual criança no carretel leve do dia. Ensina as obrigações da vida aos pequenos, tais como caçar, pescar, até a arte da guerra, espera que os menores entendam, senão, pelo peixe do dia. Assim, os conhecimentos vão sendo passados pelas gerações de acordo com a brincadeira do dia, inventadas e compartilhadas por todos da aldeia.

Em seu processo de aprendizagem, a criança indígena cresce vivenciando sua relação intrínseca com a natureza. Nessa integração, o tempo não é cronológico, mas passional, entre o ser que a vivencia e o objeto de desejo que se faz através do imaginário e, pela estética, mediada pela busca da satisfação das necessidades de sobrevivência. Na aldeia tudo é experimentado, tudo é aprendizagem. Sem os rótulos da razão, aprende-se comendo a caça e a pesca da fome do dia.

Ao índio pequeno, não lhe é cobrado que constitua seu modo de pensar e construir o mundo através de sua idade cronológica, mas pela vivência de sua cultura. Seu tempo é o de sua resposta aos estímulos recebidos através das lendas, das brincadeiras, dos modelos das práticas dos mais velhos, dessa maneira, vai se tecendo na prática da vida, fora do tempo dos relógios e das fórmulas mágicas de aprendizado.

Ao menino urbano, oferecemos fórmulas compactadas de aprendizado, de acordo com sua idade. Em seu processo de aprendizagem são oferecidos conteúdos formatados pela cultura de consumo de massa, oriundos da ideologia de mercado, ideologia esta, imposta através das campanhas de publicidade, dessa maneira, são construídos os desejos de mundo da criança moderna.

Mais do que um modelo de olhar e interagir com o mundo, essas duas culturas divergem no modo de sua construção. Uma é constituída pelos mitos e lendas que povoam o imaginário coletivo, voltada exclusivamente ao respeito à natureza, ao bem estar e à preservação dos valores culturais. A outra se valoriza pela perpetuação do conceito de mercadologização das relações, sejam essas pessoais ou de relação de mercado.

Diferentemente da letra da música dos TITÃS: “homem primata, capitalismo selvagem”, diria eu: capitalismo selvagem, homem primata, envolto em sua selva de plástico e antenas.


*Frederico Spencer é poeta, sociólogo e psicopedagogo






Poemas de Natanael Lima Jr, Affonso Romano de Sant’Anna, Fernando Paixão e Juareiz Correya





Premonição*
Natanael Lima Jr

Imagem: Reprodução











A cidade aflita deixa existir:
o caos, o medo, o pânico
em mim.

O medo prometeu
embora (ainda) acorrentado
transgredir o fim.

*In À espera do último girassol e outros poemas, 2011, p. 79



Arte-final
Affonso Romano de Sant’Anna*

Imagem: Reprodução












Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outro o ato,
quem toma uma por outra
confunde e mente.

*Affonso Romano de Sant’Anna jornalista, professor universitário, cronista e poeta.



A contorcionista
Fernando Paixão*

Imagem: Reprodução












É necessário que sejas jovem e bela
as pernas entre a flecha
e a curvatura.
Mas isso não basta
tem de haver cabelos longos e dóceis
qual um cálice negro
descendo por trás
o rosto
invertido
em boca e olhos
rara figura
como seria uma sibila dos infernos.

Então nos diga: que conquista é essa
de recriar tronco e membros
sem obedecer ao engenho do corpo
metade feminina metade monstro?

Não te iludas: os aplausos do circo
são tingidos de medo quando chega a tua hora.
Ofereces dobras
que as pupilas rejeitam
o espaço nega. Temos um tremor
de desequilíbrio.
Cegam as palmas.

0 teu corpo visitado por flores do mal
como afastá-lo das retinas?


*Fernando Paixão é escritor, jornalista e poeta. Nasceu em 1955 na pequena aldeia portuguesa de Beselga, vindo a transferir-se no início de 1961 para o Brasil.



Finadia*
Juareiz Correya


                           “Cavalgou mil camelos
      sobre as dunas do coração inquieto.
           Descansa, Lawrence of Arábia.”
        (Epitáfio, de ÉRICO MAX MULLER)


Imagem: Reprodução















Há urubus desgarrados
contra o céu
pela manhã.
Este não é um dia como outro qualquer?

Sim, a tarde não foi feita
para estes rostos falsos cinzentos mascarados
eu sobrenado no cemitério ridículo
onde besouros acendem velas
e iluminam os semblantes dos mortos
florindo nas sepulturas.
Histórias saem do chão
e arrotam contra o meu peito
odor e elos com as suas bocarras estendidas.





“Maio de Expectativas” de Jomard Muniz de Britto

Imagem: Reprodução

Se tudo pode ser dito, escrito, pensado e até mesmo ocultado, por que não admitimos o desejo de outra vez experimentar a leitura do mundo?
Experiência do que nos cerca, acontece e imaginamos. Interações. Intervenções.
Maio em presença, passado e futuração?
Reencontro das realidades com nossas intersubjetividades. Entrelugares.
O que se acha diante de nós e tudo aquilo que podemos vislumbrar.
O verbo mais próximo, como quase todos, sugere devaneios, dúvidas, expectativas.
E o ato de duvidar nos promete gestos de provisoriedade, porque tudo muda.
Mesmo que rotineiramente NÃO mude.
Para todo tipo de conhecimento – senso comum, artes, ciências, filosofias – um conjunto de experimentos é provisório.
Jamais definitivo, imutável, dogmático.
Palavra que está muito em moda nas mídias múltiplas é FUNDAMENTALISMO.
Em maiúscula ou não. O que será?
Quando nossas opiniões não permitem divergências, estamos correndo o risco de ser praticantes fundamentalistas.
Nossa verdade é a melhor, a mais forte para o que der e vier. Indubitavelmente.
Então, onde foi parar nossa capacidade de dialogar sem fazer favor algum?
E agora, leitores do mundo?
O mês das mães e noivas pode ser também o das mais cruéis estiagens.
Por que não dizermos secas em vidas?
Nordestinações e muito além.
Maio, além do mais, nos relembra 68 em todo mundo das barricadas e militâncias entre ruas, discursos e panfletos.
Luta contra os autoritarismos em defesa das liberdades compartilhadas.
Palavras sempre desejadas e por demais problematizadoras.
Em síntese precária: desejo de revolucionar a política no cotidiano das pessoas e cidades.
Porém os sonhos universais foram sufocados em pesadelos acordados.
Se desapareceram as estratégias de transformação, continuamos padecendo barbáries em processo civilizatório.
Maio de todos os anos procurando ultrapassar o TER dos consumismos pelo SER das singularidades em processo de criticidade e dialogismo.
Para experimentar as contradições da sociedade e mais ainda as contraDICÇÕES da linguagem no plural das criações, leituras e interpretações: em busca das táticas inusitadas enquanto atentados poéticos.

Recife/maio/2013
atentadospoeticos@yahoo.com.br






3 comentários:

  1. Sem sombras de dúvidas "Domingo com poesia" é um domingo com qualidade e talento.
    Desejo-lhe uma linda semana.
    beijos
    Joelma

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  2. Olá Joelma, agradecemos sua visita e seu comentário.

    Natanael Lima Jr
    Editor

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  3. Joelma, é muito bom quando há um comentário sobre nosso trabalho que é feito com muito amor e carinho em respeito à literatura e aos leitores.

    Obrigado
    Frederico Spencer
    Editor de Texto

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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima