domingo, 28 de abril de 2013


O poema e Seu Desavesso

por Bezerra de Lemos*














Imagem: Reprodução


O poema tem seu discurso específico, como toda obra de arte, e, além de tudo, tem uma unidade. Quando se analisa um poema, encontra-se a possibilidade de isolar alguns aspectos desse poema observando procedimentos técnicos e teóricos. Não devemos perder a unidade do texto, que se apresenta múltipla de leitor para leitor, mas sempre reorganizada.

Nos vários outros textos (diferentes do literário), o escritor faz uma seleção de palavras e procura combiná-las, geralmente, pela sua combinação fônica. No texto literário, principalmente no poema, acontece um outro trabalho sonoro e significativo, através das palavras e da literalidade, que se combinam entre si e acontece por parentesco sonoro. O discurso poético é específico, a combinação das palavras-metáforas dispensa a significação desses vocábulos, a fim de atingir a metonímia, ora através da sonoridade (coliteração, ou aliteração), ou pela colocação dessas palavras no texto. A aplicação dessa técnica leva o leitor a um certo grau de ambiguidade, que chega a levar um indivíduo à sinestesia. Vem daí, a plurificação do contexto literário, notadamente, no poema.

O ritmo na construção de um poema tem muita importância. Sua presença na colocação dos versos é facilmente percebida por um leitor atento, bem como a métrica e a rima, quando o poema é rimado. Todavia, esse conjunto técnico, quando quebrado ou utilizado de maneira errônea, será o vilão do próprio poema, principalmente na forma.

O poeta Vinicius de Moraes teve a transcrição de seu poema “Soneto de Fidelidade” em um jornal da Cidade do Recife, com os versos quebrados e desalinhados: ele – o Vinicius -, tremeu no túmulo, pois a sonoridade e a rima faliram e levaram o poema ao buraco.

Quando transcrevemos um poema devemos obedecer a forma original do poeta. As noções de metro, verso e ritmo encontram-se ligadas, intimamente, e não aceitam ser danificados ao bel prazer de certos Calígulas das artes.

As normas técnicas, mesmo para o poema livre ou branco definem esquemas para a composição do verso. Observando o sistema qualitativo os versos, ou regras, se subdividem em pés ou segmento, com sílabas longas e breves e, ao mesmo tempo, fortes e fracas, como se observa em Ascenso Ferreira no poema “Oropa, França e Bahia”:

- “Onde vais mulhé?”
- Vou me danado pro carrossé!
- tu não vais, mulhé,
mulhé, você não vai lá...”

Observamos que ao ler os versos de Ascenso, eles se destacam a partir da disposição gráfica e da sonoridade apresentada. Cada verso ocupa uma posição no texto, que é marcada por um ritmo específico.

Ao se transcrever o poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade, é necessário uma fidelidade à forma dos versos no poema e sua colocação no papel. No texto há uma estrofe (no JOSÉ) formando várias hipóteses, todas condicionadas à conjunção subordinada condicional “SE”, que se repete no poema formando uma musicalidade, como observamos na interpretação de Paulo Diniz:

“Se você gritasse, Se você gemesse, Se você tocasse a valsa vienense, Se você morresse. Mas você não morre, você é duro, José!”

Observe que Drummond castiga /JOSÉ/, através da repetição da conjunção “SE”, na mesma posição, formando um jogo fônico no interior das outras palavras, como uma condenação condicionada: /Se você gritasse, Se você gemesse, (...) Se você morresse. Depois o poeta nega: /Mas você não morre /você é duro, José!/.

Seja duro como JOSÉ, nunca quebre um verso nem sufoque as coliterações e aliterações. Seja um Edgard Allan Poe, no seu Corvo.


*Bezerra de Lemos é professor de Teoria Literária, crítico e membro da UBE – União Brasileira de Escritores

(Nota: Artigo publicado no Jornal Folha de PE, em 20/09/2012)








Poemas de Natanael Lima Jr, Frederico Spencer, José Inácio Vieira de Melo e Anderson Paes Barretto



A vida por um fio*
Natanael Lima Jr

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Efêmeros,
desconhecemos o tempo
que submerge e depois emerge.
Tempo provisório,
transitório e incompleto.

Efêmeros,
não por medo do acaso,
mas por assédio da solidão.

O amanhã
irá chegar imponderável
e o fio da vida
romperá o sentido
e a vida deixará de existir.

À medida que a vida
não pulsa,
estende-se ao sol
mais vida,
do resto de vida que sobrou.

(In À espera do último girassol e outros poemas, 2011, p. 81)




Linha 56*
Frederico Spencer

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Não tenho a cal
que tinge esse tempo
nem o ouro
que abre teu olho
e fecha tua mão. Ainda
não entendo
a mó, que moe essa gente
transformando em pó
o suor de nossas mãos
de tanta caliça e barro
se perderam nesse tempo
moto contínuo, de transformação
sem saber onde vamos
nem onde parar nesta dança
dos mercados, dos nossos corações.
Trago do tempo suas ilhas
onde ancoro
na corrente dessas águas
minhas jangadas sonhando
em vencer os oceanos
que tocam meus pés.

*Poema escrito em reflexão aos meus 56 anos




Caligrafias
José Inácio Vieira de Melo*

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I

Na poeira de um tempo impreciso,
as histórias do silêncio,
ninhadas de signos sem tradução.

Silêncio na carne.
Silêncio que sente a arela passar.
Tempo para a solidão do poema.

Cultivamos os nomes.
Criamos semblantes para cada nome.
Para mostrar nossos nós – a palavra.

Com os olhos marejados
a vertigem cresce:
suas roupas são de luz e de som.

O pasmo nos sobressalta
e gozamos de tudo.

II

A poesia de um tempo sem siso
e sua estranha ninhada de histórias
das entranhas do silêncio.

Nosso heroísmo é trágico
e as parcas são infinitas.

Temos apenas a ilusão  das coisas
e o caminho é irreversível.

Retomar – apenas para o Nome,
para o ser que não tem nome.

*José Inácio Vieira de Melo é poeta e editor do blog Cavaleiro de Fogo (BA)



Desconstruir
Anderson Paes Barretto*

Imagem: Reprodução
















O modernismo pós
Modernismo pôs
Modernismo pois é
Foi alguém que fez
Foi ninguém que fez
Foi rimar com dez
Marteladas
Desmantelada
Desmascarada
Diz mascarada quem és
A derradeira
Pós verdadeira
Pó da guerreira desdém
Vem destravada
De madrugada
Desnaturada que vem
Desfigurada
Desnorteada
Desamarrada
Dez amargadas que nem
Desinformada
Destrambelhada
De manhãzinha ninguém
Desmatéria lisa
Desconstruída
Desiludida agora sim

*Anderson Paes Barretto é jornalista, contista, poeta e editor do blog Multipersonalismo (PE)






O Brinquedo (conto) de Alberto Lins Caldas*



Imagem: Reprodução

*
quando a tomei nas mãos se aninhou entre meus dedos e fechou os olhos. sorri, entretido com meu novo brinquedo. achei-a delicada. com certeza seríamos bons amigos, fazendo, um ao outro, companhia nas noites de devastadora solidão. até àquele momento não quisera nada junto a mim. sempre vivi separado do mundo, enfastiado das pessoas. tudo, toda conversa ou coisa, me transfigurava o humor; calafrios nervosos me atravessavam os membros e enjoos doloridos apertavam o estômago. não quis sequer descobrir as causas, somente fugir o quanto antes da tempestade que é viver. mas com o tempo quis algo mais vivo que os objetos de casa, que se enroscasse em mim e nos soubéssemos vivos, um através do outro. no entanto, não deveria lembrar o homem cheio de traumáticas asquerosidades, simplesmente um animal, mas que não possuísse aquela fidelidade canina abjeta, nem olhos que recordassem apelos demasiados ou calor recôndito e necessário. que fosse vivo, mas não carinhosamente asqueroso. não me procurasse em demasia nem eu a ele. por isso gostei tanto do meu brinquedo.

*
no quarto construí uma espécie de ninho composto de panos e algodão. procurei pela casa aranhas e insetos desejáveis e ficava deitado no chão esperando, nos dias de fome, o certeiro golpe e o deglutir das vítimas. demorava semanas enrodilhada num sono ritual sem consumir novos animais. nesses dias de dormência e luto deitava-a em minhas mãos e acariciava o lustroso frio da pele. e de tanto velar seu sono também adormecia enquanto o sonho da treva me fazia retornar à origem terrestre e nos retorcíamos companheiros do mesmo destino dentro do lodo e da verdura, a caça primitiva, o desejo traçando substâncias do mundo dentro dos labirintos alagados de florestas ainda verdes, espumando entre folhas, galhos, troncos e cavernas. quando acordava ela ainda dormia e era difícil abandonar as paixões e aceitar a realidade do quarto, da existência os dolorosos ruídos. nos dias que permanecia acordada enchia a banheira d‘água e a via se contorcer nas superfícies, mergulhando como se buscasse um peixe no imaginário do instinto.

*
a infância passou e minha Eunectus Colubridae começou a crescer. antes de continuar gostaria de descrevê-la. não que hoje lhe tenha excessivo amor ou amizade, mas pelos velhos tempos de brincadeira.

quando chegou era minúscula. hoje tem vinte e dois metros. não deveria medir mais que oito metros em casos extremos. com certeza minha dieta especial a fez demasiadamente se desenvolver, extrapolando as expectativas mais exageradas. no entanto textos antigos afirmam ser possível a minha Eunectus alcançar a dimensão que hoje possui. por isso transcrevo as impressões de um aventureiro no seu primeiro encontro com a Eunectus.


“Ao meio dia avisaram-me os remadores que havia uma imensa Eunectus na margem. No começo só vi lama e um monte de galhos e folhas mas após a batida com o remo apareceu um pedaço do corpo do animal. Depois ergueu a cabeça mas em seguida a recolheu. Atirei contra ela e a Eunectus deu um salto, quase uns três metros, jogou muita lama sobre nós e investiu diretamente contra mim. Seu ataque veio tão inesperado que caí para trás por dentro da canoa. Um remador me defendeu com a vara de remar, perfurada pelos dentes solidamente montados que possui. Tive assim tempo de carregar novamente o rifle e acertei-a com um tiro na cabeça. Rebocamos então com muita dificuldade a Eunectus pelo rio. De outro modo não a teríamos levado.

Ao chegarmos ao acampamento fiz as medições de praxe, confirmamos o comprimento espantoso de vinte metros. Os grandes exemplares são pardo-oliváceos; os menores apresentam cor mais amarelada, sempre, entretanto, com manchas azuis circulares, bem destacadas. Suas escamas são quase invisíveis; suas narinas estão implantadas no alto da cabeça; a face inferior de sua cabeça é achatada como uma pá, tudo para facilitar o aparecimento dos olhos para fora d‘água. Desse modo esperam as presas. Podem, também, permanecer submersa por longas horas, mesmo por uma noite inteira, sem vir à tona para respirar.

Nos estômago da Eunectus colubridae encontrei dois grandes animais. Também algas, folhas e algumas pedras, que pressuponho fazem parte da sua dieta para facilitarem a digestão. No entanto, por notícias comprovadas, seu alimento principal costuma ser peixes, pássaros aquáticos, marrecas, garças e outros pássaros que nidificam ao longo d‘água e finalmente mamíferos até de porte médio, que vêm às margens para beber. Não temos notícias concretas que confirmem a morte de homens por estas feras, mas não há força humana capaz de distender o seu corpo desfazendo as contorções. No entanto uma história conta que encontraram uma Eunectus, morta, tendo enroscado em seus anéis mortíferos, um homem adulto, também morto. E depois do nosso encontro não desconfio mais dessas histórias e sei que é mais que possível uma fera destas devorar inteiro um homem e ainda ficar com fome.

[...]
Nos meses de janeiro, fevereiro e março que coincidem com o período de cio, tem-se ouvido um singular e estranho ruído, atribuído às Eunectus adultas.

[...]
Dos costumes mais estranhos podemos detectar a especial maneira de pescar: cospe uma montanha de espuma sobre a água para atrair os peixes. Depois mergulha e fica no fundo, quando os peixes paralisados flutuam na superfície, aparece de novo e os engole, emitindo um chiado alto e forte, audível à boa distância”.

aqui termina o relato. o mais é descrição anatômica, fugindo do meu propósito.

*
tenho a ela o mesmo apego de antigamente, mas um medo pesado e frio se instalou junto ao carinho desmedido que sinto. não posso deixar de avaliá-la, tapando os olhos ao que vem fazendo quando chegam os dias de se alimentar. não aceita mais os animais mortos que lhe dou. desaparece pelos quintais quando a noite cai e volta altas horas satisfeita e sonolenta. não posso fazer nada. não posso matá-la ou entregá-la aos outros. já comentam e noticiam desaparecimentos. eu só faço chorar. neste momento está dormindo, mas quem garante que não acordará enquanto durmo e me envolverá em seus anéis e me devorará calmamente? sei que isso é possível porque não a tenho deixado sair. fica se arrastando pela casa. chora desconsolada: não posso permitir que saia mais. da última vez ainda pude observar os pés de um corpo ainda não completamente engolido.

desse modo, deixo pelo menos um escrito que conte a minha fraqueza depois que descobrirem tudo. estarei morto e não sentirei piedade quando a matarem. com certeza as lágrimas que escorrem dos seus olhos na hora da morte serão as nossas lágrimas porque estarei em seu estômago, sendo um só e mesmo corpo.


*É autor dos livros sobre literatura e literatura brasileira “Litera Mundi” (Edufro, Porto Velho, 2002) e “Oligarquia das Letras” (Terceira Margem, São Paulo, 2005); dos livros de contos “Babel” (Revan, Rio de Janeiro, 2001) e “Gorgonas” (Companhia Editora de Pernambuco, 2008); do romance “Senhor Krauze” (Revan, Rio de Janeiro, 2009) e do livro de poemas “Minos” (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2011).

(Nota: O conteúdo do texto e a revisão são de responsabilidade exclusiva do autor)




Poemas dos alunos do 9º ano do Colégio Grande Passo
Projeto “Desvendando a Poesia da Química”




O projeto pedagógico Desvendando a poesia da Química”, de autoria das professoras Fátima Souza e Jaqueline Dantas, apresenta uma proposta interdisciplinar entre a Química e a Produção de texto, trabalhando os conteúdos da Química com caráter epistemológico, partindo da hipótese que o contexto histórico é fundamental no processo de aquisição das concepções científicas.

Sendo o poema o gênero textual mediador da sistematização dos conteúdos de ambas disciplinas, considerando a funcionalidade e características formais do gênero em estudo.

E desde do mês de março de 2013, os alunos do Colégio Grande Passo vêm vivenciando e se deliciando com esse evento por meio de pesquisas, produção textual e parceria com a dupla de poetas Natanael Lima e Frederico Spencer, que também são autores do blog “ Domingo com Poesia” , o qual serão divulgados os poemas dos alunos dos 9º anos.

Fátima Souza e Jaqueline Dantas
Recife, 21 de abril de 2013


As Descobertas
(Pedro, Rodrigo Ricoly, Thiago e Victor Enzo- 9º ano A)

Goldstein não era poeta,
Mas fez uma grande descoberta.
Ele descobriu os prótons
e a discussão estava aberta.
O modelo de Rutherford
Tinha núcleo e eletrosfera.
Mas havia um problema
E Bohr propôs uma ideia

Bohr trocou a eletrosfera
Por níveis de energia
O núcleo ele manteve
E o problema ele resolvia.




Química Complexa
(Alícia, André, Vinicius e Júlia- 9º ano B)

Química complicada
No seu modelo atômico
Que mistura as substâncias
E tudo fica cômico.

No seu núcleo complexo
Até Rutherford fica perplexo,
Seu modelo falhou
E Bohr outro modelo formulou
Experimentos foram testados
E outros modelos foram criados.

Goldstein mudou
O que Thompson idealizou
Descobriu a existência do próton
E tudo se formou.

Todos estavam errados
E Bohr estava certo
Ele aprimorou Rutherford
De um modo quase certo.


(Nota: Na próxima edição publicaremos mais poemas – Os editores)







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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima