domingo, 2 de dezembro de 2012


O Encanto da Poesia




José Luiz Delgado*


Imagem: Reprodução



Assim como o político parece sentir-se em inferioridade diante do intelectual, por se saber eminentemente transitório, titular de imenso poder, e da glória correspondente, mas glória e poder que, muito breves, passam, e passam rápido, ao passo que o prestígio do outro pode atravessar décadas ou até séculos, assim também pode-se identificar certa sensação de inferioridade do escritor de prosa relativamente ao poeta. E mesmo na prosa, haverá graus: o ensaísta parece desfrutar de uma perenidade menor do que o romancista. Porque (salvo evidentemente o filosófico) mesmo o melhor ensaio não deixa de ser, de alguma forma, “datado”, isto é, condicionado à cultura e ao conhecimento de sua época. A superioridade da poesia mostra-se já no fato de não poucos oradores gostarem de enriquecer seus discursos, e sobretudo concluí-los, com o que imaginam ser um “fecho de ouro”: a citação de poetas. Por que não de prosadores?

É porque a poesia é sintética, deve ser (a boa poesia) uma condensação, uma suma, o extrato de um pensamento, um sentimento, uma emoção. Sua intuição profunda, humana ou cósmica, o poeta a exprime numa “alegria para sempre”, o verso. Enquanto a prosa é essencialmente analítica, discursiva, deve ser longa porque precisa desdobrar racionalmente a narrativa ou a argumentação. Também se encontrarão, decerto, na prosa, pequenos períodos que constituirão “joias” literárias – mas será preciso pinçá-los, garimpá-los no meio de textos longos e complexos, ao passo que esses sumos, na poesia, são a própria poesia.

Pois a poesia, a boa poesia, não deve ser senão essencialmente isso: a condensação de uma intuição, de um pensamento ou sentimento que toca a todos os corações e se concentra, nela, numa forma lapidar: concisa e definitiva. Salvo poucas exceções (Os Lusíadas por exemplo) a poesia é curta, é sintética, abrevia em poucas linhas o sumo de uma substancial experiência humana – não só as experiências absolutas da transcendência: mesmo as experiências singelas das coisas efêmeras e cotidianas, que também a todos os humanos abalam.

A isso acrescente-se a sonoridade, magia que basicamente decorre da rima, mas, mesmo sem rima, deve nutrir-se do ritmo, de uma cadência, de uma especial musicalidade que a aguçada sensibilidade do poeta apreendeu e com a qual nos comove. Não há poesia sem uma inspirada harmonia sonora, mesmo aquela poesia que se quis libertar da rima e da métrica. Sem algum toque de música, portanto.

*José Luiz Delgado é pernambucano e professor universitário

Artigo publicado no Jornal do Commercio, em 11/09/2012






POEMAS DE CARLOS NEJAR, IVAN MARINHO, NATANAEL LIMA JR E FREDERICO SPENCER



Corda e faca*
Carlos Nejar

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Eis que a vida vai cortando
o pouco que a vida deixa.
E os dias se levantando
no pano da tarde negra.
Negros os ombros e os ruídos,
negros homens levantando
claros andaimes de pranto
no negro tempo passando.

Eis que a vida vai cortando
o pouco que a vida deixa.
E o mundo é longo e se dobra.
Porém a morte é mais longa
com suas rendas, fazendas.

Eis que a vida vai cortando
O pouco que a vida deixa.
E tu, ó pátria, comendo
o que te come a moenda,
o que te pasta o rebanho
e o que te sangra no bolso.

Pátria, maior sob as vigas
de salários e de noites.
Trama detida no curso,
guitarra no calabouço
dos ventos, teu coração.

Guitarra de sol, a pátria
contra o tempo ponteando
corda e faca. Faca e corda.
Corda de dor que se corta
como a vida vai cortando
o pouco que a vida solta.

*do livro “Árvore do mundo”. 1977.



Passando a limpo*
Ivan Marinho

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Tão pouco sei de poesia,
Como se algo soubesse.
Que dirá disso que disse
Quem bem sabe que de nada
Pode saber de poesia.
Que a poesia não se tem, não se é
E não se vem.
Se pássaro, voaria longe do
Pretenso a espreitá-lo,
Pousaria em mãos sabedoras
De que poesia está mais pra vôo
Do que pra pássaro.

*do livro “Anti-Horário”, poemas. Prefácio de Alberto da Cunha Melo. 2000.



Existirmos*
Natanael Lima Jr

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Acabo de traduzir o acaso,
existirmos o que se destina a ser.

O acaso me serve
no gozo de sê-lo
tão infinito, eterno.

Minha crença, o universo
qualquer outra não me acrescenta
exceto a voz
e a palavra que nomeia.

Existirmos,
o que se destina a ser?

*do livro “À espera do último girassol & outros poemas”. 2011.



Paralelo oito*
Frederico Spencer

Ao Recife, uma cidade vestida de papel sobre as águas.

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No teu dorso de cidade – a giz
traço no meu caderno tuas rotas
até onde o medo me cabe:
inventário de sombras – pátio aberto
sobre o rio mocambos parasitários
à flor de tua pele
a fé de um deus seu povo viça:
pacífico e atlântico, sul
o leste desatado – o sol e o mar
trago do tempo: areia e sal
de teus mapas
a solidão de minhas ilhas.

*do livro “Abril Sitiado”. 2011.






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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima