domingo, 26 de agosto de 2012


Razão, Poesia e Sociedade

Frederico Spencer*
frederico_spencer@hotmail.com


 






 
Em entrevista recente a um programa de televisão, o poeta e membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Nejar, falou sobre a importância da linguagem para a vida humana. Disse o poeta: “enquanto houver a palavra, que seja ao menos uma, saberemos que estamos vivos”. Fruto da preocupação do homem no decurso de sua história as questões com a linguagem e seu estudo remontam a um passado distante.

A linguagem cria a razão como forma de consciência para a vida em sociedade. Conforme Mosé: “a razão é a capacidade humana de criar valores e se guiar por eles, o que significa ir além da determinação instintiva; é a capacidade, especificamente humana de criar uma conduta mediada por signos e determinada por valores e princípios”. A linguagem neste sentido encerra um valor para as coisas agregando o sentido da moral na vida dos homens. O pensamento racional, na história da humanidade, tornou-se o fio condutor do comportamento humano nas sociedades ocidentais.

A razão como forma de pensamento, modelador do comportamento humano, busca a classificação das coisas e dos objetos através de um modelo específico de pensar através do exercício de uma linguagem que exclui as contradições e as emoções, enrijecendo o sentido das palavras para dar sentido às verdades incondicionais para as coisas e a vida.

Platão é o primeiro filósofo a sistematizar a razão como meio de entendimento dos processos da vida. Para ele há uma distinção entre o mundo inteligível, fruto da origem das coisas classificado através do conceito das ideias e o mundo sensível que compreendemos através dos sentidos, fonte dos erros e do mal.

Aristóteles refuta essa ideia trazendo à tona o conceito do dizer e do significar. Para o mesmo, a palavra deve estar vinculada a um sentido reforçando a linguagem como meio de se buscar o verdadeiro sentido da vida. Diferente de Platão, Aristóteles admitia que o pensamento e os sentidos, mesmo sendo diferentes, não seriam antagônicos.

Os discursos filosóficos sobre o papel da linguagem no contexto social nos remete a um outro posicionamento do poeta Nejar , quando este nos fala sobre o fazer do escritor no mundo atual que seria o daquele que “perturba” o contexto e a ordem das coisas, buscando redefinir a realidade que nos circunda, esse é o papel da arte através dos tempos.

Exemplo da contestação e subversão da palavra em favor da reinterpretação do contexto social e que mostra a inquietação de um homem que trabalha com poesia, encontram-se estampadas na música Haiti, de Caetano Veloso: “Pense no Haiti, reze pelo Haiti/o Haiti é aqui/o Haiti não é aqui”. E, ainda mais à frente: “e se, furar o sinal, o velho sinal habitual/notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco/brilhante de lixo do Leblon”. É muita realidade para poucas palavras, “salve aqueles que se prestam a esta ocupação”, como está em outra canção.

*Frederico Spencer é poeta, sociólogo e psicopedagogo




0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima