domingo, 6 de maio de 2012


A Face Oculta de Belchior

Douglas Menezes*                                              





 
Escuto com prazer e sempre numa paixão renovada “De Primeira Grandeza”, poesia música do compositor cearense Belchior. Canção transformada em hino do amor de todas as formas. Uma exaltação aos deuses que propagam a afetividade sem medida, inclusive aquela cuja sociedade hipócrita ainda põe como pecado e passível de recriminação pública.

Música de melodia simples, sensível, mas de uma letra profunda, tem, no eu- lírico, a voz homossexual declarada logo no começo, como um aviso aos navegantes, ao mesmo tempo em que expressa a condição de artista, daquele que vai ao palco para brilhar, difundir ilusões e talvez mostrar sua outra face, que a vida real não permite mostrar. Início de uma canção marcante, como de resto é toda obra de cantor brasileiro: “Quando estou sob as luzes / Não tenho medo de nada / E a face oculta da lua que é a minha/ Aparece iluminada/ Sou o que escondo sendo uma mulher / Igual a tua namorada...”

A partir daí, no entanto, há toda uma valorização da condição masculina e feminina. A importância de todos os gêneros aflora de modo cristalino, mostrando que somos seres em igualdade de condições, independente de opção sexual, para viver a vida com intensidade e paixão.

Primeiro, a força masculina, sua importância para a existência humana: “ A força masculina atrai e não é só ilusão”. Lembrando antes a presença feminina atraída pelo oposto: “Musa, deusa, mulher, cantora e bailarina”. Como fica evidente, então, a concepção democrática do eu-lírico! Como difere daqueles movimentos “libertadores” que criam abismos humanos, incentivando o rancor e a noção de que a liberdade deve ser cultuada apenas para o gênero que se supõe merecedor dela! O cearense dá a noção exata do valor humano como um todo, inclusive lembrando ao ouvinte essa visão quando junta os dois lados humanos, homem e mulher: “Anjo, herói, Prometeu, poeta e dançarino / A glória feminina existe e não se fez em vão”. Então, o homossexual do início, conclama a todos a serem iguais enquanto seres fazedores da humanidade. A primeira grandeza é justamente a busca da fraternidade e do direito ao prazer que as pessoas deveriam possuir.

Por fim, a certeza de que só se vive bem a vida quando, no cerne dela, existe paixão. Tudo o que a humanidade construiu de bom e de ruim até hoje foi fruto de uma visão apaixonada: “E se destina ao gozo a mais que se imagina / O louco que pensou a vida sem paixão”.


*Douglas Menezes é escritor, professor de Língua Portuguesa, pós-graduado em Literatura Brasileira e em Leitura, Compreensão e Produção Textual pela UFPE, membro da Academia Cabense de Letras.




POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, FREDERICO SPENCER, ANTONIO DE CAMPOS E NELINO AZEVEDO



Desarmei as dores*
Natanael Lima Jr

Desarmei as dores
e as plantei no jardim do passado.
Ouvi o seu chamado
(contra a vida)
e desviei o seu curso
no silêncio do poema.

Desarmei as dores
como se brotasse do tempo
anéis, pontes, girassóis
e vaga-lumes.

Desarmei as dores
colorindo as nuvens
sobre rios e alagados.

Desarmei as dores
e as amei como quem perdoa,
como algo eterno,
etéreo e fugaz.

Desarmei as dores
como se brotasse das manhãs
folhas, flores e frutos.

*do livro “À espera do último girassol & outros poemas”



Anotações*
Frederico Spencer

Deflagro-me sem poesia
mais pela azia do tempo
que se forjou. A palavra
em fuga se despe em silêncio
(suas vestes queimam em fogo brando).
De cal o homem caia o cio. Disfarçando:
o que zela para o amanhã.
Herdo a poesia deflagrada desse tempo
com o branco da paz que o mundo reza:
na era da ogiva, ativa era.
Talvez haja poesia. Amanhã
se a paixão não corroer
as palavras no papel. Esperam
libertadas.

*do livro “Quadrantes Urbanos”, 2006



A grande pedra que virou pequena pérola*
Antonio de Campos

Grande era a pedra
e a chuva um dia
amolece a terra do morro
onde a pedra dormia.

E o vento veio
e na pedra o vento soprou
e solta a pedra achando,
do morro a pedra rolou.

A pedra desceu calada,
no meio dos homens partiu,
foi pelas vias da aldeia,
e ninguém a pedra viu.

E na cidade imensa,
o mesmo à pedra acontece
quando pela rua avança
como se no campo estivesse.

Na longa descida,
todas pontas a pedra quebrou,
ficando pedra lisa
no que de pedra restou.

Já velha e gasta,
por vielas e becos seguia –
pequena ficou a pedra
que foi grande um dia.

Noites e dias sem fim,
quanto mais rolava,
menor ia ficando
a pedra que não parava.

E feito grão de areia,
a pedra veio à praia dar
prum longo mergulho
e o pó da viagem tirar.

Mas a pedra continua
embaixo d’água a girar,
indo, então, numa ostra
fazer o seu último lar.

E ali vira pérola a pedra
que ninguém vira rolar
de cima do morro
até morrer no mar.

*poema extraído do “O livro dos bichos”



Felicidade
Nelino Azevedo*

A felicidade existe
É arte
Trela de criança
Nota solta que voa e faz dança
Fronteira aberta pelo riso da esperança
A felicidade sobrevoa as cidades
E busca os desvalidos
Acalma os ofendidos
Ocupa os resignados
Conforta os de dor embriagados
Deita no colo dos desconfortados
Abriga os oprimidos.

A felicidade não se estampa em neon
Não se reveste nas fitas palacianas
E não se olha nas vitrines da bonança
A felicidade está no chão onde caminham os pés
E entra pelos poros como sal na água
E se entranha na carne, no coração, na alma
E ocupa todos os campos físicos
E se exala nos espaços metafísicos
E extrapola os limites do onírico
E se denuncia real
A felicidade nunca bate a porta
Pois já ocupa as salas e os porões
Precisa apenas que cada um se descortine
E se enxergue nessa grande história lida
Que é o ato chamado vida.

*Nelino Azevedo é Presidente da Academia Cabense de Letras


Um comentário:

  1. Adoro a poesia pernambucana. Estou lhe seguindoe gostaria quvc visitasse meus blogs
    www.sertaodesencantado.blogspot.com
    www.amusasemmascara.blogspot.com
    Não é um blog sofisticado como o seu pq foi feito amadoristicamente.
    Infelizmente não poderei estar no Encontro literario dos blogs pq estou no Rio e só volto final de maio
    abçs

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima