sábado, 7 de abril de 2012


Intertextualidade na Poesia (I)

Natanael Lima Jr*













“A literatura é um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a”.

(Antonio Cândido)



Quando tratamos das relações intertextuais na lírica contemporânea, há de se aprofundar algumas reflexões sobre a intertextualidade e, sobretudo, sobre a polifonia e o dialogismo. Mas, para tanto, é necessário lançar mão de conceitos que pertencem ao âmbito da Linguística Textual, Análise do Discurso, da Gramática e da Teoria Literária.

Pesquisas sobre os processos intertextuais e polifônicos nos remete, obrigatoriamente, a um dos principais teóricos da Língua e da Literatura, Mikhail Baktin, que em seus estudos, que englobam Linguística, Psicanálise e Crítica Literária, encontramos visivelmente sua preocupação em mostrar o quanto a linguagem tem de dialógica, uma vez que ele não vê a língua como um sistema abstrato, mas como uma criação coletiva, sendo parte de um diálogo cumulativo entre o “eu” e o “outro”. Observa a língua como uma constante interação entre os sujeitos, cada língua, segundo Baktin, passa a ser um conjunto de linguagens e cada sujeito falante abre-se a uma multiplicidade de linguagens, tornando-se, portanto, multilíngues, já que consegue adaptar sua linguagem de acordo com a situação e com o interlocutor.

A intertextualidade é um recurso tão importante e tão recorrente que podemos afirmar que nenhum texto se produz no vazio ou se origina do nada; ao contrário, alimenta-se, de modo claro ou subentendido, de outros textos. Inúmeros estudiosos sobre esta temática chegam a afirmar que nenhum texto vem ao mundo numa solidão inocente, mas sempre faz referência a outro (ou outros) texto, seja este para reiterar, seja para contestar, seja para subverter suas ideias.

Assim, a intertextualidade tem um campo de ação tão amplo e profundo que é possível afirmar que ela atinge todos os produtores de textos, escritos e falados; verbais e não-verbais. Também pode ocorrer com outras formas além do texto, na música, pintura, filme, novela, entre outras. Toda vez que uma obra fizer alusão à outra ocorre a intertextualidade.

Na literatura brasileira temos um clássico exemplo significativo. O poeta romântico Gonçalves Dias escreveu, em meados do século XIX, o famoso poema “Canção do exílio”; desde então muitos outros poetas produziram intertextos, ou por simples alusão, ou para repensá-lo. Vejamos: 


“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá”
(Gonçalves Dias)

“Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!”
(Cassimiro de Abreu)

“Minha terra tem palmares,
Onde gorjeia o mar”
(Oswald de Andrade)

“Minha terra não tem palmeiras...”
(Mário de Andrade)

“Um sabiá
Na palmeira, longe.”
(Carlos Drummond de Andrade)


*Natanael Lima Jr é poeta, pedagogo, membro da Academia de Estudos Literários e Linguísticos (Anápolis – GO), da Academia Cabense de Letras (Cabo de Santo Agostinho – PE) e editor do blog “Domingo com Poesia”.





70 ANOS DA POESIA VIVA DE ALBERTO DA CUNHA MELO


(1942 – 2007)


Alberto da Cunha Melo tem a poesia no sangue. Neto e filho de poetas foi jornalista e sociólogo. Nasceu em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, em 08 de abril de 1942 e faleceu em 13 de outubro de 2007. Publicou 17 livros, 14 de poesia, e participou de 35 antologias, duas delas internacionais.

Na década de 1990 seus poemas saem das fronteiras do estado e ganham o país e o exterior com o livro “Yacala”, lançado na Universidade de Évora, em Portugal, com prefácio do crítico literário e professor da Universidade de São Paulo Alfredo Bosi.

O livro “Meditação sob os Lajedos”, depois inserido no livro “Dois Caminhos e uma Oração” foi considerado um dos dez melhores livros publicados no Brasil em 2002, formado por um júri de 400 especialistas do Prêmio Portugal Telecon de Literatura Brasileira, em sua primeira versão (2003).

Em 2006, o poeta Alberto da Cunha Melo publicou o livro “O Cão de Olhos Amarelos & Outros Poemas Inéditos”, uma edição comemorativa dos seus 40 anos de poesia, que mereceu da Academia Brasileira de Letras o reconhecimento como melhor livro de poesia publicado em 2006, no Brasil, recebendo o Prêmio de Poesia 2007 da ABL.




“A nova poesia de Cunha Melo traz esse estímulo à inteligência: convida o leitor a deter-se no sentido de cada frase, é um plus de energia significante que “dá a pensar”, para dizê-lo com a fórmula incisiva de Paul Ricoeur”. (ALFREDO BOSI)


“Tenho vontade de sair cantando ou dançando, chorando ou mugindo, quando leio Alberto da Cunha Melo.” (DEONÍSIO DA SILVA)


“Sem deixar-se seduzir pelos modismos artísticos, sua poesia é autêntica. É, como já disse, dotada de verdade e de beleza. E, sendo assim, gostaria de parafrasear Johannes Pfeiffer, em Introdução à poesia: devido à sua verdade, esta poesia é necessária; devido à sua beleza, é beatificante!” (HILDEBERTO BARBOSA FILHO)


“Em Alberto da Cunha Melo: há uma dor no poema, há uma carta, uma comunicação para os outros, quaisquer outros; nele a poesia existe com ‘um para sempre’.” (JOAQUIM CARDOSO, in Agenda Poética do Recife, 1968, p.14)






POEMAS DE ALBERTO DA CUNHA MELO


Canto dos Emigrantes

Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.

De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.



Formas de Abençoar

Fique aqui mesmo, morra antes
de mim, mas não vá para o mundo.
Repito: não vá para o mundo,
que o mundo tem gente, meu filho.

Por mais calado que você
seja, será crucificado.
Por mais sozinho que você
seja, será crucificado.

Há uma mentira por aí
chamada infância, você tem?
Mesmo sem a ter, vai pagar
essa viagem que não fez.

Grande, muito grande é a força
desta noite que vem de longe.
Somos treva, a vida é apenas
puro lampejo do carvão.
No início, todos o perdoam,
esperando que você cresça,
esperando que você cresça
para nunca mais perdoá-lo.




O Presente

O que hoje recebes
e não podes pegar, guardar
em panos e papéis laminados,
é imperecível,
presente onipresente.
Estás com ele na chuva
e não temes que se desfaça.
Estás com ele na multidão
e não o escondes dos mutilados.
O que não existe para os homens
deles estará protegido,
o que os homens não veem
não poderão espedaçar.
Eis o que não te denuncia
porque não tem face
nem volume para ser jogado no mar.
Eis o que é jovem a cada lembrança
porque não tem data
e série, para envelhecer.
O que hoje recebes
não pode ser devolvido.




3 comentários:

  1. Natan,
    Parabéns por esta justíssima homenagem ao poeta maior do Brasil que, em vida, foi tão injustiçado, principalmente em sua terra. Precisou que o Tolentino, o Bosi, o Ivan Junqueira e outros grandes nomes da literatura brasileira reconhecessem a grandeza do pernambucano para que pudéssemos encontrar algum respeito na província. É preciso dizer todos os dias Viva o poeta maior, viva Alberto da Cunha Melo!
    Ah, publica Ergonomia. E lá vai minha homenagem ao poeta q foi publicada no Pewrnambuco: Terra da Poesia:

    ALBERTO DA CUNHA MELO

    Condenação e sacerdócio
    Fazem de alguns homens Deus,
    Onipresentes nas veias
    Do universo ateu.

    E nas plagas da ausência
    Descortinam intenções
    Nunca, jamais percebidas,
    Incrustadas nas ações.

    Santificam heresias
    Em planos da divindade
    E apesar de altos vôos
    Só do chão cavam verdade.

    E até parecem gratos
    Da condenação de ver,
    Assim como a assumir

    Um sacerdotal dever
    De levar fogo ao trono
    Fazendo acordar do sono
    As colônias do poder.

    ResponderExcluir
  2. meu caro, a poesia nos faz atravessar os mares entre São Paulo e Pernambuco. Conversemos, sempre. Abraços

    ResponderExcluir
  3. Saudações quem aqui posta e quem aqui visita.
    É uma mensagem “ctrl V + ctrl C”, mas a causa é nobre.
    Trata-se da divulgação de um serviço de prestação editorial independente e distribuição de e-books de poesia & afins. Para saber mais, visitem o sítio do projeto.

    CASTANHA MECÂNICA - http://castanhamecanica.wordpress.com/

    Que toda poesia seja livre!
    Fred Caju

    ResponderExcluir

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima