domingo, 15 de abril de 2012


Doce Amargura: O Final de um Tempo

Douglas Menezes*

 




José Lins do Rego
(1901 – 1957)


Menino hoje não sabe o que é um carro-de-boi, muito menos ouviu sua fala arrastada e triste, como um lamento num velório. Sei, também, que a geração digital talvez nem tenha ouvido falar em José Lins do Rego. Olhar as máquinas destruírem o resto do canavial para a chegada dos galpões e indústrias pesadas para o eldorado de Suape deu-me, de repente, uma estranha necessidade de relembrar ou lembrar a obra do autor paraibano. O barulho das máquinas não escurece a memória que revive o vento batendo nas canas quase maduras para o corte.

Zé Lins diz de um final de um ciclo. Cantou a Sociologia de uma região que mudava, como agora, para um momento econômico diferente dos banguês e engenhos do início do século vinte. Foi um poeta da decadência. A linguagem triste dos seus romances do ciclo da cana de açúcar, notadamente Banguê e sua obra-prima Fogo Morto, atesta todo um conjunto melancólico de um lugar, como hoje aqui, despreparado para uma mudança radical.
 
Exército de infelizes, ricos e pobres, os personagens de Banguê e Fogo Morto. Todos a serviço da decadente região canavieira da mata pernambucana e paraibana. Genial como as ”pessoas” dessas obras fazem parte de todo o ambiente dos romances: morrem, enlouquecem, perdem tudo ou fogem para lugar nenhum. O menino de engenho Carlos de Melo é exemplo típico: o herdeiro das terras do avô é um inútil dentro do contexto. Sem vocação para a agricultura sucumbe, como os outros, foge, abandona os seus. O avô, Zé Paulino, já velho, morre, sem deixar o personagem principal de Banguê constatar que a nobreza que divulgara aos amigos da faculdade sobre o avô senhor de engenho, nada mais era que uma fantasia, uma ficção. Encontrara sim, um homem rude, de vida simplória, com a idade o fazendo mesquinho.

Banguê e Fogo Morto são obras de ficção maduras, dentro do espírito do Regionalismo Moderno, na linguagem oral, principalmente, o que nos aproxima da fala do homem comum. Os dois livros são músicas, sinfonia do melancólico. Um canto que nos faz sentir o cheiro de cana, o doce do melaço, o gosto sensível dos frutos daqui. E o odor de suor do pobre homem da roça. Tristeza em todo canto.

Feliz, então, o crítico Oto Maria Carpeaux ao afirmar sobre a obra de José Lins do Rego: “José Lins é brasileiríssimo. Grande Literatura. Os historiadores do futuro aproveitar-se-ão desse documento para reconstruir todo um mundo. Essa obra não morre tão cedo. É eternamente jovem como o povo, é eternamente triste como o povo. É o trovador triste da província”.

Triste a obra de José Lins do Rego. Melancólica, mas de uma beleza ímpar, porque autêntica e humilde como a própria vida. Deu, o cantador da Paraíba, o sopro da existência. Fez da palavra o barro para construir uma literatura épica, voluntariosa, engajada no bom sentido. Bela, poética, como a própria vida.
 

*Douglas Menezes é escritor, professor de Língua Portuguesa, pós-graduado em Literatura Brasileira e em Leitura, Compreensão e Produção Textual pela UFPE, membro da Academia Cabense de Letras.






POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, ANTONIO DE CAMPOS, CYL GALLINDO E FREDERICO SPENCER
 

Espelho dos teus olhos*
Natanael Lima Jr
 

Vejo no brilho dos teus olhos
o reflexo do universo
que há em mim.

Vejo no brilho dos teus olhos
a singularidade das cores da natureza,
a conexão do real e do abstrato.

Vejo no brilho dos teus olhos
o lirismo exagerado e compulsivo
das manhas e manhãs inumeráveis.

Vejo no brilho dos teus olhos
o reflexo do (meu) universo
submerso.


novembro/2010

*do Livro “À espera do último girassol & outros poemas”
 



Uma folha pra Whitman
Antonio de Campos


Ah, Whitman, estranho como um ano depois
tu virias, suave enfermeiro,
em meu socorro.
Aos desafortunados levavas medicamentos,
a mim me chegaste com uma folha de tua relva:

aquela em que dizes ter visto em Luisiana
um carvalho crescendo. Nunca estive em Luisiana,
jamais vi um carvalho,
mesmo a crescer sozinho.

Contudo, também me senti com saudades,
quando num bairro proletário,
longe de casa,
contemplei uma cajazeira de cujo galho
dois rebentos desafiavam o mundo.

Os dois eram tenros e um mais que o outro.
Um era mais crescido e o outro o acompanhava
em crescimento.
Não conheceste uma cajazeira,
como ignoro as feições dum carvalho.

Porém sabemos que são árvores vivas
e por serem vivas,
nos ensinaram.

Que coisa, Whitman, sentirmos que ao vê-las,
pensamos em nós, porque nos outros:
tu em teus companheiros
sem os quais não podias viver
como vivia aquele carvalho triste, solitário.

E eu me tomando por uma cajazeira,
via em seus tenros rebentos
meus filhos distantes.

Tuas alvas barbas não as tive ao pé,
mas que tem isso a ver se te conheço irmão
e a lição dos Homens
aprendemos com as árvores?

Se abro o teu livro, já não estou só:
eu sou teu companheiro em outro hemisfério!



Stop – parou a vida
Cyl Gallindo*

             Para Carlos Drummond de Andrade

Choro copiosamente por um homem
mas sei que é um choro cego, surdo e mudo,
e com olhos secos.
Portanto, é um gesto camuflado:
nunca poderá ser visto,
como nunca se vê nada
por dentro de um homem.

Todas as palavras
que possa dizer para ele
ou sobre ele
serão engolidas pela morte.

Não manifesto qualquer reação,
Porque, semelhante a este homem,
Mas de esquife infinitamente menor,
Estou estático, como carro velho,
E sou igualmente inútil
Perante a vida.

Brasília-DF, 1987
 

*Cyl Gallindo é poeta, jornalista, membro da Academia Pernambucana de Letras e da Academia de Letras do Brasil (Brasília-DF)



A máquina, o homem e o seu tempo
Frederico Spencer                        

                   Ao poeta Alberto da Cunha Melo
 
                                        
A máquina e o tempo
moem . O homem
moe a máquina. E o tempo
multiplica o homem, em outros
que pouco tem. Como alguém
se dedicou em plantar? - Palavras
ao vento, das páginas
sonhou descalculado o mundo
sem ventanias nem moendas
só o verbo amar, se multiplicar.
Pobre do homem reto; de livre pensar
com seus pés de vento
encontrar seus anjos e demônios
no  branco do papel da máquina
a vida desenhar.

Olinda, 12/04/2012



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima