domingo, 18 de março de 2012


Um Brinde a Recife, Olinda e a Poesia!








Esta semana foi, sem dúvida, repleta de beleza, história, cultura e poesia. No dia 12 de março, as cidades-irmãs pernambucanas Recife e Olinda comemoraram mais um aniversário. Apenas dois anos separam a fundação dessas duas importantes cidades, quase tão antigas quanto o Brasil: Recife, a capital pernambucana, é a mais jovem, completou 475 anos, e Olinda, 477. Em homenagem às duas cidades, o blog Domingo com Poesia traz nesta atualização poemas de vários poetas que encantam e cantam Recife e Olinda. Também comemoramos nesta quarta-feira, 14 de março, o Dia Nacional da Poesia, data que coincide com o nascimento do grande poeta baiano Castro Alves. Por fim, temos a alegria de anunciar a todos vocês os amigos Cyl Gallindo, Douglas Menezes e Frederico Spencer como nossos novos colaboradores. Aqui, seu domingo não será mais o mesmo. Boa leitura!



Cotovia
Manoel Bandeira

— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?

— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe. . .
Voltei, te trouxe a alegria.

— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia. . .

— E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.

— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!

— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.




Olinda
Carlos Pena Filho

De limpeza e claridade
É a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
A linha do horizonte.

As paisagens muito claras
Não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
Ou claridade somente.

Olinda é só para os olhos,
Não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro
Diz somente: é lá que eu vejo.

Tão verdágua e não se sabe
A não ser quando se sai.
Não porque antes se visse,
Mas porque não se vê mais.

As claras paisagens dormem
No olhar, quando em existência.
Diluídas, evaporadas,
Só se reúnem na ausência.

Limpeza tal só imagino
Que possa haver nas vivendas
Das aves, nas áreas altas,
Muito além do além das lendas.

Os acidentes, na luz,
Não são, existem por ela.
Não há nem pontos ao menos,
Nem há mar, nem céu, nem velas.

Quando a luz é muito intensa
É quando mais frágil é;
Planície, que de tão plana
Parecesse em pé.




Pregão turístico do Recife
João Cabral de Melo Neto

Aqui o mar é uma montanha
regular redonda e azul,
mais alta que os arrecifes
E os mangues rasos ao sul.

Do mar podeis extrair,
do mar deste litoral,
um fio de luz precisa
matemática ou metal.

Na cidade propriamente
velhos sobrados esguios
apertam ombros calcários
de cada lado de um rio.

Com os sobrados podeis
aprender lição madura:
um certo equilíbrio leve,
na escrita, na arquitetura.

E neste rio indigente,
sangue-lama que circula
entre cimento e esclerose
com sua marcha quase nula,

e na gente que se estagna
nas mucosas deste rio,
morrendo de apodrecer
vidas inteiras a fio,

podeis aprender que o homem
é sempre a melhor medida.
Mais: que a medida do homem
não é morte mas a vida.




Tatuagem na água
 Jaci Bezerra

No Recife me perco e me inauguro
pisando acácias e águas machucadas,
no bolso o sol ferido, um sol maduro
escorre úmido, e acende a madrugada.
Uma árvore brota no meu peito impuro
acalentando a infância que, abismada,
brinca dentro de mim e dói no escuro
sempre por um menino acompanhada.
Nunca a essa cidade fui perjuro
nem nunca a reneguei, talvez por isso
ela me planta e aninha entre os seus muros
e eu a carrego em mim, arrebatado,
apodrecendo nos mangues dos seus vícios
e amando como se nunca houvesse amado.




Crônicas da terra
Frederico Spencer

Recife, canto
em três tempos:
Re - um sentido prático
ci - de sífilis transmutada
fe - das beatas rezadeiras.
Durante o dia
me queimo no teu sol
corando minha alma negra.
E, à noite,
observo teus telhados desbotados
de onde olho o mundo.




A Sobrevivência-Mangue-Recife*
Cyl Gallindo

Aí vão minhas palavras a bordo duma ratoeira.
Quero soltá-las, dizê-las. Mas quem as ouve? Não sei!
Mergulhá-las no profundo, não é destino para um rio.
Transformá-las em gesto alado, quem dera?
Pois o ar está prensado, guilhotinado na poeira.

Se dizes: “- O barco é livre, do remo a força é própria,
no pescador não se interfere, pode andar na superfície!”.
Eis aí minhas palavras: abruptas, soltas de si.
Quero juntá-las, dizê-las, sem receio dos caninos:
Fazem tudo para retê-las, armados nos incisivos.

Devo, então, plantar uma árvore, no quintal de minha casa
que se chame Liberdade. Os seus frutos são palavras,
nascidas de um novo dia. Amadurecerão tranquilos:
como estrume terão sabres e algemas desoladas
e nas folhas a clorofila do calor dos meus vizinhos.

*Conquistou o Prêmio Nacional de Poesia – Friburgo/RJ. Vertido para o francês pela Profa. da UFPE Nilda Pessoa. Publicado em Caliandra – Poesia de Brasília – André Quicé Editor/1995.




Identificado Recife*
Juareiz Correya

hoje amanheci domingo
estou cedo pelo Recife deserto
as possibilidades são raras
nesta cidade que eu sou:
o sol do atlântico pode me devorar
ou a chuva do Capibaribe me apodrecer.
ninguém transita ou veicula sorrisos
não chega ou se despede ninguém cotidiano
tudo sou eu que parei e descanso mortomente.
a cidade que eu sou entardecerá cinemas
crepusculabrirá boates sexuais passeios
passagens noite a dentro.
amanhãserei primeiro
segunda feira
dia que te uso e mascateias


*do livro “Americanto Amar América e Outros Poemas do Século 20”



Um comentário:

  1. Domingo com Poesia é como café da manhã domincal com a família.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima