domingo, 25 de dezembro de 2011


Mário Quintana
A rua dos cataventos: XII

Tudo tão vago... Sei que havia um rio...
Um choro aflito... Alguém cantou, no entanto...
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu...

O Menino dormira... Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu...
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto...

E era a voz que eu ouvi em pequenino...
E era Maria, junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino...

Eras tu... que ao me ver neste abandono,
Daí do céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!...

Desejamos aos amigos(as), sinceramente,
um feliz Natal e um ano muito próspero,
iluminado  e repleto de poesia.




Alberto da Cunha Melo
Apresentação do Natal

Anunciado desde a época
das grandes tribos, das roupagens
amplas e soltas do deserto
e antes do Cântico dos Cânticos.

Visto sob a forma de pombo
no alto cajueiro do pátio
ocidental, e sobre as tábuas
extraviadas dos mandamentos.

Pressentido no levantar
das lonas, para as litanias
dos salmos nos acampamentos
e na cruz loura da manhã.

Arauta se propaga a voz
alta na túnica dos ventos:
o Primogênito do Gólgota
será coroado e despido.

Mas, não agora que devemos
leve cobri-lo, e coroá-lo
só de avelãs. Hoje somente
basta que seja uma criança.




Vinicius de Moraes
Poema do Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.




Antonino Oliveira Júnior
O choro do amor


É doloroso e cruel
É como sentir o prego perfurando tua carne,
Teus nervos, tua história...
O Teu olhar sereno
Sossega nossas lágrimas
E apascenta nossos corações...
Volto no tempo
Que me leva à manjedoura
Para ver-Te em prantos
No colo da mãe serena...
O choro do amor ecoava,
O choro que trouxe luz
Apontou caminhos para a humanidade
E encheu de esperanças
Um mundo preso aos pregos
E ao choro do nosso sofrimento,
Esquecendo , sem razão,
O Teu choro de amor.




Natanael de Lima Jr.
À espera do último girassol                             

Podar o sonho, recriá-lo
no chão batido da alma
entre nuvens e jardins
entre rimas e cantos
e lábios e voz.

Podar o amanhã, reinventá-lo
à luz de uma nova batalha
entre mãos que sangram
e corações que pulsam.

Podar a esperança, renová-la
ao sol de cada manhã
entre brotos, folhas,
flores e frutos,
à espera do último girassol.




Juareiz Correya
Jesus nasce todos os dias
(fragmento)

O menino Jesus
não nasceu em Belém
no dia 25 de dezembro.
O menino Jesus
nasce todos os dias
em todas as cidades.
E nem é Natal
quando ele nasce.
Não há estrelas especiais
nos céus
nem governantes
que têm fé
para que milagres se cumpram.
Nem mesmo há Marias
Compadecidas e de coração
iluminados de amor.
Há mulheres com pressa
parindo automáticas
pequenos negativos
da miséria e da dor.
Eles vão crescer
talvez sem infância
sem pão e estudos
e sem condição sequer
de carinho e ternura
entre pais e irmãos.
Não saberão o que é
o Outro, o Próximo,
e que a Humanidade existe,
porque tudo lhes foi negado
desde o dia do nascimento.
O menino Jesus
que é muitos sem nome,
sem teto e com fome,
nem saberá o que é a História
que se repete todos os dias
em que ele será Cristo
sem ser Deus.
(...)



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima