domingo, 30 de outubro de 2011


A geração 65 de poetas pernambucanos



Sem dúvida, a Geração 65 foi um dos mais importantes movimentos literários do nosso estado e do país. O movimento teve início em Jaboatão, por volta de 1964. Integraram os poetas Alberto da Cunha Melo, Domingos Alexandre, José Luiz Melo e Jaci Bezerra. Denominou-se inicialmente Grupo de Jaboatão, passando a ser conhecido, por sugestão do historiador Tadeu Rocha, em Recife, como Geração 65. Posteriormente fundaram o Movimento Pirata e as Edições de mesmo nome e mantiveram a marca, Geração 65.

Ao falar em Geração 65, além do nome do historiador Tadeu Rocha, se faz imprescindível citar o do escritor, poeta, professor e crítico literário César Leal. Pois esse fato inegável da história brasileira, que é a Geração 65, foi gerado e fomentado por ele, quando nas páginas do Diário de Pernambuco, em 1966, publicou os primeiros poemas do chamado Grupo de Jaboatão e, a seguir, pela Imprensa Universitária, publicou os primeiros livros dos então jovens escritores e poetas pernambucanos.

O segundo momento foi configurado pelo próprio historiador Tadeu Rocha,quando, em 1967, nomeou o surgimento desse e outros escritores e poetas da Geração 65, já em uma confluência na qual se constatavam nomes como os dos escritores Glaudstone Vieira Belo, Marco Polo Guimarães, Tarcísio Meira César, Ângelo Monteiro e os do Grupo de Jaboatão. Todos já levados a público. Logo a seguir, ainda é possível registrar: Severino Figueira, Tereza Tenório, José Rodrigues de Paiva, José Carlos Targino, Sérgio Moacir de Albuquerque, Marcus Accioly, Cláudio Aguiar e Raimundo Carrero.

O movimento de confluência pode ser comparado ao de uma onda que mais se alteia na década de 70, seu terceiro momento, com encontros na Universidade Federal de Pernambuco, no então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, hoje Fundação Joaquim Nabuco, na livro 7 e seu entorno da boemia recifense. Então é possível registrar, numa freqüência significativa, os nomes de Arnaldo Tobias, José Mário Rodrigues, Almir Castro Barros, Marcos Cordeiro, Janice Japiassu, Paulo Bruscky, Lucila Nogueira, Maximiano Campos, Fernando Monteiro, Roberto Aguiar, entre outros.

A efervescência do movimento se dará com as Edições Pirata, movimento liderado por dois poetas do Grupo de Jaboatão, nascente da Geração 65, os poetas Alberto da Cunha Melo e Jaci Bezerra, e a escritora Eugênia Menezes. Conforme depoimento de Eugênia, registrado no livro dos Trinta Anos (1995), faziam parte do grupo inicial: Maria do Carmo de Oliveira, Nilza Lisboa, Amarindo Martins de Oliveira, Andréa Mota, Vernaide Wanderlei, Ednaldo Gomes, Myriam Brindeiro e a poetisa Celina de Holanda.




POEMAS DE JACI BEZERRA, ALBERTO DA CUNHA MELO, DOMINGOS ALEXANDRE, MARCO POLO GUIMARÃES, TEREZA TENÓRIO, LUCILA NOGUEIRA, CELINA DE HOLANDA






Jaci Bezerra


Dentro de ti faz primaveras


Não me basta colher palavras
pelo verão iluminadas
pois dentro do meu peito lavras
uma canção iniciada
água do amor que me acalenta
e do teu sonho se sustenta
Que mão de amor em nós sustenta
essa ventura iluminada?
Tua presença me acalenta
nesta canção iniciada
Canto teu corpo com palavras
se teu corpo ao meu corpo lavra
Sei da canção iniciada
e dos rosais da tua lavra
por isso trago iluminada
a safra acesa das palavras
mas sei que só o amor sustenta
esse trigal que me acalenta
Não morrerei da tua lavra
nem da paixão que me acalenta
além estás destas palavras
da luz e fogo que as sustenta
morrerei sim da iluminada
canção por ti iniciada
Não basta o amor que me acalenta
nem alicerces de palavras
desejo a vida que sustenta
a vida acesa que nos lavra
o instante em que iniciada
a canção foi iluminada
Toda canção iluminada
da vida apenas se sustenta
e antes de ser iniciada
foi a paixão que a acalenta
com essa safra de palavras
que na areia do meu peito lavras.






Alberto da Cunha Melo
(1942 – 2007)


Morte sob contrato


Sua morte, sob encomenda,
ajustada a si como roupa,
não prêt-à-porter, contra entrega,
mas bala a bala, gota a gota,

era, no entanto, igual à vida
que antes viveu, sob a medida

da ordem, da métrica demência,
a que distribui a matança
de acordo com a procedência

e o cadastro da freguesia
da morte, a crescer todo dia.






Domingos Alexandre


Damasco


Deus andava em silêncio pela casa
E eu, pasmado, mirando-me em seu rosto,
Sentia o seu olhar como uma brasa
Ardendo na penumbra do sol posto.

Atordoado com sua presença,
Como se a vida ali desmoronasse,
E ofuscado ante aquela luz imensa
Senti vergonha e, desviando a face,

Me achei, de bruços sobre o chão, caído
A pedir-lhe perdão por meus pecados
Mas, pelo seu olhar, vi, comovido,
Que haviam sido, há muito, perdoados.


Senti meu corpo, então, como uma pluma
Livre de toda dor e sofrimento.
Lá fora agigantavam-se na bruma
O horror do mundo e a solidão do vento.
Imaginei que tudo fosse um sonho,
Tinha diante de mim a Eternidade,
Mas Deus me olhava e o seu olhar risonho,
Era só compaixão e piedade.

E eu abracei-o como faz o filho
Que, finalmente, reconciliado,
Se inflama na voragem do seu brilho
E fica, para sempre, iluminado.

Fui para rua e Ele saiu comigo
Pôs o braço em meu ombro e deste então
Tem seguido ao meu lado como um amigo
Que sabe os rumos do meu coração.

Não busca me arrastar ao seu rebanho,
Mas me envolve em seu manto com carinho.
E, embora sinta em mim algo de estranho,
Deixa que eu siga, livre, o meu caminho.






Marco Polo Guimarães


Fonte


A Arnaldo Tobias


Mesmo contra todos os
prognósticos
(palavra horrível)
ainda acredito no riso
embutido na boca
destroçada pelo soco.

E mesmo contra todos os
indícios
(palavra dúbia)
ainda creio no azul
do sim feito encarnado
na garganta navalhada.

E apesar de tanta pedra
voando
 (palavra incrível)
sinto e penso ser possível
no pássaro soterrado
ainda um rumor de asa.






Tereza Tenório


Soneto do Pátio


A Maria de Lourdes Hortas


Eram todas as tardes luz e outono
nos fusos dessa sacra hagiologia
as mulheres vestiam a cor do encanto
sob os vitrais do pátio Alegorias

fluíam dos meus dedos desencantos
renasciam das lágrimas tão frias
pelas horas perdidas pirilampos
cintilavam na acesa geografia

da paisagem lunar Sonhava o Pátio
quando o tempo tecia sua teia
de filigrana e musgo nossos lábios

desfrutavam da chama que incendeia
o casario o templo iluminado
o relógio de sombra sol e areia





Lucila Nogueira


Decisão


Gosto de amar assim avidamente
fogueira terremoto tempestade
sobre a tua maior tranqüilidade

ventosa universal nadando leve
o céu se precipita do meu sexo

entranha nervo córtex voltagem
arrasto os horizontes da cidade

cautelas seguranças subsolos
perdoem se me dispo de repente
e me encaminho ao mar sem dar resposta





Celina de Holanda
(1915 – 1999)


Retorno


Este chão é pausa.
Dêem-me a infância
para que eu retorne
reencontre meu chão,
seu verde, seus marcos,
seu barro plasmável.

Quero saber de novo
de terreiros limpos
com vassouras verdes

do tempo correndo
branco como um rio,
carregando as roupas
qual nuvens mais alvas.

Massapê das margens,
sapatos de lama,
toalhas de vento
e o regresso limpo,
lento como a tarde.



2 comentários:

  1. Prezado Poeta e Amigo Natanael!!!!

    Parabéns pela bela postagem de hoje. A geração 65 realmente marcou uma página da História do Brasil.

    Fraternal abraço.

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  2. Mas que poema horroroso, o de Lucila Nogueira! Pelo amor de Deus!!!!!!!!

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima